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24/11/2012

Duas Notícias Opostas, um Retrocesso e um Avanço



Sei que faz tempo que não posto coisa alguma. Às vezes, sinto vontade de comentar notícias, mas há coisas tão deprimentes que comentar seria mexer ainda mais na ferida, mas, bem, vou comentar duas notícias opostas publicadas esta semana, uma que aponta para algum avanço na condição das mulheres, outra, para o retrocesso. Vivemos disso, afinal, não é mesmo? Luta contínua, avanços e retrocessos.


A primeira notícia ponta para um backlash inesperado, pelo menos para mim. A Igreja Anglicana, depois de 12 anos de discussão, deliberou no dia 20, terça-feira, que não irá ordenar mulheres como bispos. Para que fosse aprovada, seria necessário 2/3 dos votos do Sínodo Geral que tem 470 votantes entre leigos, bispos e clérigos. Segundo o arcebispo de York, John Sentamu, foram os leigos que derrubaram a moção. Bispos e clérigos tinham aprovado. Segundo a Gazeta do Povo, “Mais de mil integrantes da Igreja Anglicana, incluindo bispos e clérigos seniores, enviaram uma carta ao jornal "The Independent" na segunda-feira (19) pedindo ao Sínodo para decidir em favor da ordenação”. Já o the Times tinha publicado na sexta da semana anterior uma carta assinada por 325 clérigos pedindo que o Sínodo não aprovasse. Segundo eles, isso geraria novas fraturas. O fato é que a cada avanço dos anglicanos (ordenação de mulheres, de homossexuais), o papa da vez, João Paulo II e, agora, Bento XVI, oferecem aos anglicanos a possibilidade de “retorno”, abrindo, inclusive, para os padres casados, já que a Igreja Anglicana estaria “se desviando”. Mas, obviamente, abrir exceção para padres casados, não é desvio, é estratégia utilizada desde a Idade Média... Para tentar evitar uma nova sangria, a Igreja Anglicana deu um passo atrás... Enfim, as mulheres já são ordenadas bispos por ramos da igreja anglicana na Austrália, Nova Zelândia, Canadá e EUA, pois há aqueles que se subordinam às decisões vindas da Grã-Bretanha, outros que tem seus próprios sínodos.


A notícia positiva é que a presidente Dilma Rousseff assinou ontem a promoção da primeira oficial general das Forças Armadas. A capitão de mar e guerra Dalva Maria Carvalho Mendes passará a contra-almirante - patente equivalente a general de brigada, no Exército, e brigadeiro, na Aeronáutica. É preciso ressaltar que a promoção à oficial general não é somente por folha de serviço, mas depende da estima que @ oficial tenha entre seus pares, isto é, nem todo sujeito que chega à coronel – ou seu equivalente – é promovido à general, deve haver consenso entre os outros oficiais generais de que a pessoa merece entrar para este seleto grupo, ou seja, trata-se de uma decisão puramente política, não no sentido partidário, mas quando pensamos que depende de escolhas pessoais. Que ninguém pense que foi decisão da Dilma, pois se não houvesse concordância entre os almirantes, não haveria promoção. Segundo o Globo, a promoção foi decidida em reunião com o ministro da Defesa, Celso Amorim, no Palácio do Planalto. A promovida, Dalva Maria é diretora da Policlínica Naval Nossa Senhora da Glória, no Rio. Ela entrou na Marinha em 1981, tem 56 anos, é viúva e tem dois filhos. A Marinha foi a primeira das três Forças a aceitar mulheres em seus quadros. A participação das mulheres se deu a partir de 1980. Atualmente, dos 2.882 oficiais da Marinha, 33,3% são mulheres; dos 2.933 praças, 6,8%. É ótimo, mas, ao mesmo tempo, curioso, pois a Marinha mantém suas escolas principais – Colégio Naval e Escola Naval – as que estão ligadas à formação dos oficiais da armada, permanecem fechadas para as mulheres. Se a história que está rolando de que o Exército será obrigado a abrir as Agulhas Negras no ano que vem proceder, a Marinha deve ter quer abrir pelo menos a Escola Naval. Lembrem que a AFA abriu em 1992 seu exame de admissçao para as mulheres e já formou umas duas turmas de pilotos com mulheres. A Marinha abriu seus quadros primeiro, é pioneira outra vez, mas continua sendo extremamente conservadora. Vitória, sim, mas com ressalvas.

18/04/2012

E o Século XIX é revisitado em uma festa constrangedora



Quando abri a Folha de São Paulo hoje, deparei-me com essa foto chocante. A de cima, que fui procurar em uma resolução melhor em outro site, a outra encontrei na mesma busca. Há vários ângulos do bolo na internet. Vejam bem, houve uma festa (*não protesto*) no Moderna Museet (museu de arte moderna de Estocolmo), com a presença de ministra da Cultura sueca, Lena Adelsohn Liljeroth, o objetivo era chamar atenção para uma das maiores crueldades que são infringidas às mulheres, especialmente na África, mas, também, em alguns países do Oriente Médio, a mutilação genital feminina, que alguns tentam adocicar chamando de circuncisão feminina. A mutilação, prática mais que milenar no Continente Africano, tem como principal objetivo controlar o exercício da sexualidade feminina, em alguns casos, privando as mulheres de qualquer prazer sexual. Sancionada por algumas lideranças islâmicas, a prática resistiu apesar de não ser essencialmente muçulmana. Pois bem, um artista (*homem*) decidiu fazer essa beleza de bolo: uma mulher negra absolutamente estereotipada; nua, como as vênus negras colocadas em exposição no século XIX; com recheio vermelho; sugerindo carne e sangue; deveria ser cortada a partir das genitais pela ministra. A cada corte, um grito.


Olhem a foto. Mulheres brancas riem do bolo que é uma das coisas mais constrangedoras e ofensivas que eu já vi. Elas não se veem na mulher negra objetificada, levada ao extremo de ser oferecida como comida (*e gostosa*). O artista branco não se projetar na figura bizarra que criou, OK, mas mulheres na Suécia – um dos países com melhores índices de igualdade de gênero – não compreenderem isso, dói, dói muito. A associação Afro-Sueca qualificou (*com toda a razão*) a decisão da ministra de participar do evento mostra “incompetência e falta de discernimento” e pede sua demissão. Ela se diz antirracista. Eu acredito que seja, como tantos antirracistas que não conseguem perceber o quão racistas são. Só que a coisa transcende o racismo, porque traz de volta o gosto ruim do colonialismo, na apropriação do corpo das mulheres negras, como força de trabalho e fonte de prazer sexual. É triste, muito triste, ver imagens tão século XIX sendo reeditadas dessa forma.

07/04/2011

'Ele atirava nas meninas para matar', diz aluno que sobreviveu a ataque



Eu não queria estar certa, mas nosso primeiro massacre em escolas (*e que seja o último*) foi, também, um feminicídio (crime de ódio contra mulheres). Será que eu fui a única a juntar dois pontos? Vi o Datena e ele cortou o repórter dizendo que não dava para saber, porque não sabíamos quantos alunos e alunas havia em sala. É o medo de admitir que uma proporção de quase 10 menina para 1 menino em uma escola comum não pode ser NORMAL? Será que a carta enlouquecida do assassino não era sintomático de alguma coisa? Mas os meninos, maioria dos sobreviventes, estão confirmando: "Ele atirava nas meninas para matar", disse um;"Relaxa, godrinho, eu não vou te matar", disse outro; e, por fim, "Ele colocava a arma na testa das garotas e puxava o gatilho, sem pena" e "Ele simplesmente entrou na sala, puxou a arma e começou a selecionar as pessoas que iriam morrer". Eis que o ódio do sujeito pelas mulheres transbordou nisso aí, no assassinato brutal de meninas. Então, quando lembrarem deste crime, lembrem, também, que há crimes que são específicos, feminicídio, assim como homofobia, existem. Crimes assim acontecem todos os dias e, sim, homens heterossexuais são seus agentes na maioria dos casos. É triste, mas a cultura da violência favorece esse tipo de coisa, e a cultura da violência é machista. Por favor, diga ao babaca que saiu papagaiando que meninas morreram em maior número "porque não correm direito" ou "porque ficam paralisadas de medo", que essa pessoa está papagaiando idéias machistas, também.

Minhas Considerações sobre as Meninas Massacradas em Realengo



Estou abrindo esse post por pura especulação e indignação. Primeiro, o crime da escola em Realengo, as 11 alunas mortas, sim, no feminino, porque foram 10 meninas e 1 menino, me deixaram profundamente triste e amargurada. Agora, sim, estamos no primeiro mundo! Temos nosso Columbine... ou algo do gênero. Em segundo lugar, as proporções de 10 meninas para apenas 1 menino entre os mortos e de 13 meninas feridas para somente 3 meninos feridos, me deixaram de cabelo em pé. A carta do assassino, carregada de surtos religiosos (*cristãos, não islâmicos, como muita gente começou a inventar*) e sexuais sobre castidade e pureza, me deixou muito, muito desconfiada. Para mim, e estou fazendo essa afirmação sem nenhuma informação posterior, trata-se de um crime de ódio. Ofereço, para quem duvida, dois outros crimes semelhantes em números: o da Universidade em Montreal, no Canadá e o da Escola Amish, nos EUA.

Em 1989, Montreal, um sujeito invadiu a École Polytechnique, entrou em uma sala, rendeu todos, separou homens de mulheres e disse que estava lutando contra o feminismo. Atirou em nove moças, matou seis. Deixou uma carta de suicídio com uma lista de “feministas” que queria matar. O caso da escola Amish é mais recente. Em 2006, um sujeito invadiu uma escola Amish (*Lembram do filme A Testemunha?*), tomou uma classe como refém, liberou os meninos, ficou com as dez menininhas. Matou cinco, e não terminou o serviço, porque ao perceber a aproximação da polícia, ele se matou.

Agora, alguém me diga qual escola do Rio de Janeiro ou de qualquer lugar do Brasil que não seja curso normal, enfermagem (*e aqui pode nem ser*) ou algo semelhante que tenha uma proporção próxima de 10 meninas para cada 1 menino em sala. Eu lecionei em curso normal e a proporção chegava perto disso. Esse não era o caso da escola do Realengo. Contudo vem alguém e me diz que temos estes números, porque as meninas sentam na frente. E, sim, ninguém se mexeu. Eu dou aula para adolescentes, posso até ter mais meninas na frente, mas a proporção é quase meio a meio.

Desculpem, mas meu desconfiômetro está ligado aqui. Não acho que existam culpados. Não é algo que se espere que aconteça em uma escola brasileira, ninguém pode comprar armas de forma indiscriminada neste país salvo se estiver envolvido com o crime, e torço para que não tenhamos ninguém imitando o criminoso em outras escolas por aí. Eu realmente acredito que ocorreu um crime de ódio e o uso do masculino, o suposto universal, que esconde o número de vítimas mulheres, meninas, na verdade, é ofensivo. Torço, também, para que nenhuma das feridas morra e estou incluindo os três meninos.

Quanto ao assassino, era alguém que sofria de transtorno mental. Deveria estar internado, mas o Estado abriu mão de tratar de forma adequada os doentes mentais, para cortar custos. Claro, que tudo é disfarçado em belas teorias que dizem que é melhor o paciente estar com os seus familiares... Sei! Nem sempre isso é possível e/ou aconselhável. Eu defendo o tratamento humanizado, que hospitais psiquiátricos não pdoem ser prisões, no entanto, é preciso dar todo o apoio especializado aos parentes e ao paciente. Isso, o Estado não tem feito. Eis a minah crítica. Outra coisa, vi gente especulando que o policial executou o sujeito. Armado do jeito que ele estava (*vi a foto dele morto no jornal O Dia, com os carregadores em volta do corpo. Se abrir, está avisad@!*), se o policial o matou, fez o que deveria ter feito naquelas condições. Não lamento isto, eu lamento, sim, pelas crianças. E que me chamem de fascista se quiserem, pois assumo integralmente o que digo. Cabe agora investigar como o sujeito conseguiu as armas, tanta munição e os carregadores rápidos (speed loaders). Qual o significado do seu traje imitando a indumentária militar? E o conhecimento e o treinamento que, apesar de ser mentalmente doente, ele certamente possuía? Isso, sim, é importante!
O relato de uma das meninas sobreviventes (*1-2*) só reforça que o criminoso tinha um modus operandi. a cosia foi planejada e ele escolheu matar meninas. Meninas mesmo, já que ele entrou e a primeira pessoa que encontrou foi uma professora.

13/07/2009

A mãe deixou a filha sozinha em casae ela caiu do 5º andar



Eu estou espumando por causa da matéria do Bom Dia Brasil sobre a queda de uma menina do 5º andar. Para a Globo, esta criança, que tinha pai e mãe, ambos na festa, morreu por culpa da mãe que “(...) deixou a filha sozinha em casa”. É a demonização das mulheres em ação, na hora do seu café da manhã. Todos os outros jornais, o Dia (*é só clicar*), e a Folha (*aí embaixo*), falam em pais, pois neste caso, ambos foram responsabilizados, mas a Globo só falou que havia um pai no final da matéria. Todo o foco foi na mãe irresponsável, negligente, colocada para falar diante da câmera em visível estado choque. Interessante é que a Record não fez assim, não expôs a mulher, e, claro, seguindo os jornais impressos, usou “pais” o tempo inteiro.

Eu questiono a prisão de ambos, como o faz um pediatra no fim da matéria. Eles podem ter sido irresponsáveis, mas já estão sendo penalizados pela perda da criança, que parecia ser caçula. E os vizinhos atestam o quanto ambos amavam a menina. Interessante, é que meus pais, por essas regras, teriam que ter sido presos. Eu fiquei várias vezes sozinha em casa, porque pedi, desde os 6 ou 7 anos. A idéia de ficar 4 horas em pé com minha mãe na fila de um banco ou em reuniões ou festas chatas, me desanimava. Era muito melhor ficar em casa assistindo desenho, desenhando, brincando. Nunca toquei fogo na casa, bebi produtos de limpeza, pulei da laje porque assisti o desenho do Peter Pan que dizia “Pense uma coisa bem boa e num instante você voa!”. Mas meu marido aqui, que nunca ficou só em casa porque minha sogra já tinha quase 50 quando ele nasceu e mal saia de casa, seria capaz de aprontar dessas.

Enfim, estou postando o caso aqui, porque questiono a forma como a matéria da Globo foi conduzida e a meu ver é mais um exemplo de como a mídia estigmatiza as mulheres e as torna únicas responsáveis pelos filhos e filhas, ainda que estes tenham pais.

Menina cai do 5º andar e morre no Rio; pais são presos

A polícia descarta homicídio, mas prendeu o casal sob acusação de abandono de incapaz

Rita de Cássia, 5, estava sozinha no apartamento quando caiu; os pais estavam em uma festa junina do condomínio

PEDRO SOARES
DA SUCURSAL DO RIO


A menina Rita de Cássia Rodrigues de Sena, 5, morreu na noite de sábado após cair da janela do apartamento onde morava, no 5º andar, em Tomás Coelho, na zona norte do Rio. Os pais da garota foram presos em flagrante sob acusação de abandono de incapaz -crime que prevê pena de prisão de quatro a 12 anos. A polícia descartou a hipótese de homicídio. O pai da menina disse que a morte foi uma fatalidade.

Fátima Rodrigues de Sena e seu marido, Gilson Rodrigues de Sena, pais da menina, estavam em uma festa junina no playground do condomínio na hora da tragédia. Segundo a mãe, na festa a garota reclamou que estava com sono. Fátima relatou que subiu com a menina por volta das 22h30 e a colocou para dormir. Fátima contou à polícia que resolveu voltar para a festa por volta das 23h para chamar a filha mais velha, de 14 anos, que está grávida.

Quando voltou ao apartamento, às 23h25, não achou a menina e pediu ajuda. Os vizinhos encontraram Rita caída no estacionamento. "Foi uma fração de segundo, tudo muito rápido. Quando vi o apartamento vazio, entrei em desespero. Achei que tivessem sequestrado a minha filha. Foi horrível", disse Fátima.

Segundo a polícia, a menina passou por um buraco na rede de proteção da janela da área de serviço. O rombo que já existia foi provavelmente alargado pela menina, que tinha uma pequena tesoura, onde foram encontrados fragmentos da tela. Antes de cair, a menina arremessou pela janela alguns objetos, como um lençol, um cobertor, uma mochila com roupas e brinquedos e a própria tesoura.

O delegado-adjunto da 25ª DP (Rocha), Marco Aurélio de Castro, disse que todas as evidências apontam para um caso de abandono de incapaz, agravado e qualificado por ter resultado em morte e por ter sido praticado pelos pais da vítima. "Foi uma fatalidade, sem dúvida, mas eles são responsáveis. Jamais poderiam ter deixado a menina sozinha. Foi negligência", disse Castro.

O delegado disse que a hipótese de homicídio está totalmente descartada graças às imagens de três câmeras do circuito interno de TV do prédio, instalado há apenas três meses. Nas cenas, que captaram o momento da queda (às 23h24), não aparece ninguém entrando no apartamento no período em que a garota ficou sozinha.

Castro disse que Rita não tinha marcas de agressão e que parecia ser bem tratada. "Era uma menina forte, robusta, bem nutrida. O próprio peso pode ter feito a rede ceder." De acordo com Castro, Rita provavelmente queria chamar a atenção dos pais ou estava brincando quando caiu.

Para o pediatra Lauro Monteiro Filho, fundador da Associação Brasileira Multiprofissional de Proteção à Infância e à Adolescência, não há dúvida de que se trata de um caso de negligência, embora tenha dúvidas se a prisão se justificaria num caso desses, em que não houve intenção de matar. "Criança tem de ser vigiada o tempo todo. Mas esse tipo de prisão é discutível", diz ele.
outro lado

Para o pai da criança, queda foi fatalidade
DA SUCURSAL DO RIO

Gilson Rodrigues de Sena, pai de Rita, disse que a morte foi uma fatalidade. "Ela me pediu para ir à festa. Deixei de ir ao chá de bebê da minha outra filha para dar prioridade à Ritinha. Eu a maquiei. Ela estava linda, alegre. Ela dançou. Foi como uma despedida", disse a mãe, Fátima. A advogada contratada disse à noite que já tinha pedido a liberdade provisória do casal.

05/07/2009

A segunda morte de Eloá


Inaugurando o blog com uma matéria do Correio Braziliense sobre o Caso Eloá, acontecido em São Paulo no ano passado e que por conta da solidariedade para com o seqüestrador, provocou a morte de uma menina e danos físicos e psicológicos em outra. Agora, o jornal aqui de Brasília fala dos estragos à família.


Violência: A segunda morte de Eloá

Assassinato da adolescente, em outubro passado, deixou família desestruturada econômica e psicologicamente. Mãe vive praticamente na miséria

Ullisses Campbell

Santo André – Todas as vezes que vai à cozinha, a dona de casa Ana Cristina Pimentel, 42 anos, sente um aperto. Estão estampadas na porta da geladeira três marcas de balas de uma tragédia de consequências dolorosas. Ela é mãe de Eloá Pimentel, 15 anos, morta com um tiro na cabeça em outubro do ano passado depois de passar 100 horas sequestrada pelo ex-namorado Lindemberg Alves, 23 anos. Ana Cristina reclama que, além de perder a filha, o marido, Everaldo Pereira dos Santos, fugiu para não ser preso. Ele é procurado pela Polícia Civil de Alagoas. Sem a ajuda financeira do marido, a família de Eloá está na miséria.

Na época em que Eloá foi sequestrada, Everaldo morava com a família, usava o nome de Aldo e trabalhava como segurança particular. Ex-policial, recebia pensão da PM de Alagoas e da Associação de Cabos e Soldados de Maceió. Ana trabalhava numa creche e a renda familiar chegava a R$ 2,5 mil. Os dois irmãos de Eloá, um de 22 anos e outro de 14, também sofrem com a tragédia. “Fui afastada do trabalho porque não tenho condições de sair de casa todos os dias.” Contas de luz e telefone estão atrasadas.

No dia em que o Correio visitou Ana Cristina, em Santo André, o almoço estava prestes a ser servido. Na mesa, um ovo frito para cada e arroz. “Na época em que minha filha estava viva, sempre tinha carne.” Ela vive de R$ 265 que recebe de pensão por invalidez do INSS e da ajuda do filho, que é militar, e ganha um salário mínimo. “Antes, eu passeava no shopping, meus filhos faziam cursos de informática e inglês. Hoje, a diversão é assistir televisão.”

Solidariedade

Ana Cristina recebe solidariedade de vizinhos e amigos. Recentemente, foi convidada a ir a Belém (PA) conhecer Maria Augusta dos Anjos, 49, receptora do coração da filha. “Fiquei triste ao saber que a família está passando necessidade”, conta Maria Augusta. Para a viagem, Ana recebeu R$ 500 de uma ONG que incentiva doação de órgãos. Por causa de problemas psicológicos, ela usa dois medicamentos controlados doados pelo governo: sertralina(!) e clonazapam.

Ana diz ainda que é graças à droga que ela consegue dormir e sonhar com a filha. “No Dia das Mães, sonhei que estava numa praça com ela. A gente ria e se abraçava. Aí descia uma nuvem e ela sumia na névoa”, relata. Para tentar superar as dificuldades de hoje, ela faz sessão com um analista pago por programas sociais.

Depois que Eloá foi sepultada, o governo de São Paulo resolveu trocar o apartamento em que eles viviam na periferia de Santo André por uma casa de cinco cômodos. Na mudança, boa parte dos móveis ficaram para trás. Alguns, destruídos pela ação policial. O sofá, com manchas de sangue, Eloá doou. “Sugeriram mandar lavar, mas me recusei.”

A geladeira é o único eletrodoméstico de valor que pôde ser aproveitado. Guarda as marcas de balas. “Quando olho, meu coração dói por lembrar daquele dia. Comprar outra é sonho. Queria pelo menos poder mandar para oficina para apagarem essas marcas.”

ESTRESSE PÓS-TRAUMÁTICO

Medicamento usado para o tratamento da depressão. Geralmente é receitado para pacientes que passam por estresse pós-traumático. No caso de Ana Cristina, ela sofreu quase todos os efeitos colaterais do remédio, que incluem náuseas, vômitos, diarréia, falta de apetite e perda de peso, além de fadiga e sedação.

Acusação de pistolagem

A Polícia Civil de Alagoas mantém as buscas ao pai de Eloá, o alagoano Everaldo Pereira dos Santos, 48. Acusado de integrar um grupo de extermínio que matava sob encomenda no início da década de 1990, ele está foragido há 16 anos e reapareceu publicamente no enterro da filha.

No mês passado, policiais chegaram ao município alagoano Matriz de Camaragibe graças a uma denúncia anônima. Ao entrarem na casa onde supostamente estaria o pai de Eloá, uma testemunha relatou que ele havia saído minutos antes. A polícia também chegou atrasada em dois endereços em São Paulo. Hoje, para capturá-lo, a polícia intercepta com autorização judicial o telefone da casa de Eloá e mais dois celulares.

Everaldo adotou o nome de Aldo Pimentel logo que fugiu de Maceió e há cinco anos morava na casa de Eloá. Apareceu publicamente no enterro, fotografado sendo socorrido pelos Bombeiros. Foi hospitalizado, mas fugiu antes de a polícia chegar. Contra ele, pesam acusações de ser um dos assassinos do delegado Ricardo Lessa, em 1991, em Maceió. Ele também responde pelo assassinato do motorista Antenor Carlota e outro homicídio na Comarca de Passo do Camaragibe.

O juiz Geraldo Amorim disse ao Correio que Everaldo vai ser julgado à revelia, já que o crime está prestes a prescrever. Segundo o MP de Alagoas, o pai de Eloá foi expulso da PM por envolvimento na “gangue fardada”, responsável por crimes de pistolagem, roubos de carros e assaltos. Ele poderá pegar de 12 a 30 anos de cadeia. O advogado José Beraldo disse que não vai informar o paradeiro de seu cliente. Ele disse que só não o entrega à polícia de Alagoas porque a corporação “é uma das mais corruptas do país”. “Pode estar em qualquer lugar. Vamos ver se a polícia acha”, ironiza.(UC)

Memória: Negociação desastrada

O sequestro de Eloá Pimentel, 15, entrou para a história de São Paulo como o maior cárcere privado já ocorrido no estado. Teve início em 13 de outubro de 2008,quando Lindemberg Fernandes Alves, 23 anos, invadiu o apartamento onde a ex-namorada (Eloá) fazia uma reunião com amigos, em Santo André. O sequestrador liberou dois reféns e manteve Eloá e amiga Nayara Silva. No dia seguinte, o sequestrador conversou por telefone com a mãe de Eloá, Ana Cristina e, depois, passou negociar com o comando do Grupo de Ações Táticas Especiais (Gate).

Quando o sequestro completou dois dias, Nayara foi libertada, mas no dia seguinte a polícia paulista pediu que ela voltasse ao cativeiro para ajudar nas negociações. Quando o cárcere privado completou 100 horas, policiais do Gate e a Tropa de Choque da PM explodiram uma bomba na porta do apartamento alegando ter ouvido um disparo no interior do imóvel. Invadiram o local.

Os policiais teriam entrado em luta corporal com Lindemberg, que teve tempo de atirar em direção às reféns. Nayara deixou o apartamento andando, ferida com um tiro no rosto. Eloá saiu carregada em uma maca, foi levada inconsciente para o Centro Hospitalar de Santo André. Ela levou um tiro na virilha e outro fatal na cabeça. Lindemberg foi preso e Eloá teve morte cerebral três dias depois. Foi sepultada em 19 de outubro. (UC)

As Meninas e a Matemática



“A experiência em sala de aula nos diz que todos os alunos têm capacidade de aprender. O que faltam são professores preparados para motivá-los. Não tenho a menor dúvida de que tanto meninos quanto meninas têm a mesma capacidade”, concorda Reginaldo Ramos de Abreu, coordenador regional no DF das Olimpíadas Brasileiras de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP). “Na infância, a criança lida muito bem com qualquer área. O problema começa quando ela entra na escola. Se as pessoas ficam dizendo para elas, desde pequenas, que são incapazes de aprender, esses alunos acabam com desempenho pior nas exatas. É uma questão cultural”, afirma.

Essa parte acima resume bem todo a matéria do Correio Braziliense. E eu acrescentaria que a ausência de professoras de matemática e ciências exatas em geral, ou o seu adestramento para que repitam que "são boas com números, apesar de serem mulheres", é mais um empurrão apra que as meninas, especialmente na adolescência, deixem os números de lado. Obviamente, em comunidades de imigrantes nos EUA - chineses, indianos e outros - a coisa tem configuração diferente, pois matemática é "linguagem universal" e peis e mães com domínio restrito da língua inglesa podem auxiliar. Daí, os dados desses grupos tendem a contrariar o que seria "a regra geral".


Resposta ao machismo

Estudo realizado em universidade norte-americana desmente suposta inabilidade das mulheres para a matemática

• Paloma Oliveto


Desde cedo, as meninas aprendem que números não foram feitos para elas. Equações e fórmulas seriam coisa de meninos. De fato, eles ainda são maioria nas competições nacionais e internacionais de matemática e sobem mais ao pódio do que elas, mas um artigo recente publicado no jornal de ciências norte-americano Proceedings of the National Academy of Sciences desmente o senso comum de que as mulheres não têm o mesmo potencial que os homens no estudo da disciplina. As autoras, Janet Mertz e Janet Hyde, professoras da Universidade de Wisconsin-Madison, defendem que o desempenho inferior está relacionado apenas a questões culturais, sem qualquer influência biológica.

Homens e mulheres, dizem as pesquisadoras, têm a mesma capacidade de aprendizagem da matemática. Mas os estereótipos ligados à área das ciências exatas influenciariam a performance individual das alunas. Acostumadas ainda na infância a escutar que não nasceram para resolver questões de lógica, elas se sentiriam desestimuladas, o que acabaria atrapalhando os resultados nos testes.

Mesmo entre cientistas já formadas, essa é uma realidade. “Um estudo mostrou que mulheres cientistas que estavam em uma conferência onde 75% dos inscritos eram homens sentiram-se menos desejosas de participar e mesmo mais intimidadas do ponto de vista psicológico do que aquelas que estavam num evento onde os sexos estavam balanceados”, diz o artigo.

“A experiência em sala de aula nos diz que todos os alunos têm capacidade de aprender. O que faltam são professores preparados para motivá-los. Não tenho a menor dúvida de que tanto meninos quanto meninas têm a mesma capacidade”, concorda Reginaldo Ramos de Abreu, coordenador regional no DF das Olimpíadas Brasileiras de Matemática das Escolas Públicas (OBMEP). “Na infância, a criança lida muito bem com qualquer área. O problema começa quando ela entra na escola. Se as pessoas ficam dizendo para elas, desde pequenas, que são incapazes de aprender, esses alunos acabam com desempenho pior nas exatas. É uma questão cultural”, afirma.

As pesquisadoras de Wisconsin-Madison estudaram os resultados de provas e olimpíadas de vários países e os correlacionaram ao nível de igualdade entre homens e mulheres em cada um deles, seguindo um documento elaborado no Fórum Econômico Mundial de 2007. O informe traz questões sobre oportunidades no mercado de trabalho, na política e na educação, entre outras áreas. “Países com grande paridade de gênero são aqueles onde a razão de meninos e meninas que vão bem em matemática é praticamente idêntica”, conta Janet Mertz. As pesquisadoras puderam observar que, em nações asiáticas, assim como na Inglaterra e na Irlanda, a quantidade de meninas e meninos que acertaram 99% das questões de uma prova internacional aplicada em 2003 foi a mesma.

Menina recordista

Coordenador regional da Olimpíada Brasileira de Matemática (OBM) desde 2005, Genildo Alves Marinho acredita que, por desenvolverem a linguagem mais cedo que os homens, as mulheres acabam se interessando mais pelas ciências humanas. “Mas isso não quer dizer que não podem ter o mesmo desempenho que os homens na matemática”, diz. Ele diz que, embora no número de inscritos na OBM ainda predominem os estudantes do sexo masculino, numa proporção média de 60%, o melhor resultado brasileiro até hoje foi de uma garota. A estudante da 8ª série do ensino fundamental do Centro Educacional Leonardo da Vinci foi a única medalhista de prata do país na Olimpíada de Maio, que ocorre na Argentina e reúne estudantes de toda a América Latina. Para chegar lá, teve de passar por três difíceis etapas, com provas objetivas e discursivas.

Com a experiência de lecionar para 13 turmas de matemática, Genildo diz que o interesse pela disciplina é igual entre homens e mulheres, com pequenas variações. Uma das alunas mais aplicadas é Sarah Calaça Felix, 17 anos. Estudante do 3º ano do ensino médio no Leonardo da Vinci de Taguatinga, a jovem faz um curso extraclasse de matemática avançada oferecida pela escola na parte da tarde. “Não sou uma expert, mas acho muito interessante. A matemática desenvolve o nosso raciocínio lógico. Dizer que homem é melhor é um preconceito da sociedade”, diz Sarah, que vai prestar vestibular para ciências contábeis. O gosto pela disciplina começou cedo. Ela estava na 2ª série do ensino fundamental e passou por dificuldades na hora de aprender divisão. “Eu pedia ajuda, mas ninguém sabia me explicar”, diz. Então, decidiu resolver, sozinha, a questão. Por conta própria, aprendeu e se apaixonou pelo tema.

Exemplos

Colega de escola, Raíssa Vitório Pereira, 17 anos, descobriu a matemática mais tarde, no último ano do ensino fundamental. “Foi quando começamos a aprender química e física e vi que a matemática pode ser aplicada na nossa realidade, no nosso dia a dia”, conta. Catarina Serra Braga, 15, que quer fazer medicina, também é fã da disciplina, que considera estimulante. “Quando ouvimos o nome de uma mulher que atua na área da ciência, nos surpreendemos. Antes, a mulher era muito reprimida, não tinha estímulo para entrar na área”, observa. Para Raíssa, a realidade começa a mudar. “Se você vai à UnB (Universidade de Brasília), vê que o número de mulheres nas (ciências) exatas é muito grande. E existem muitas mulheres que trabalham na área e são reconhecidas. Ainda não ultrapassamos os homens, mas estamos ganhando espaço”, acredita.

A professora do Instituto de Ciências Matemáticas e de Computação da Universidade de São Paulo Maria Aparecida Soares Ruas, membro da diretoria da Sociedade Brasileira de Matemática, confirma o palpite de Raíssa. No ensino superior, conta, há tanto mulheres quanto homens cursando exatas. “Mas à medida que vão prosseguindo os estudos é que a diminuição no número de mulheres é observada”, diz. Ela explica que as profissionais do sexo feminino chegam até mesmo ao doutorado mas, depois, acabam impedidas de seguir a carreira de cientista. “Para a mulher, ainda é difícil conciliar a vida pessoal com a profissional. O cientista precisa viajar muito, participar de congressos. Mesmo hoje, quando os homens participam mais das atividades domésticas, a mulher ainda tem dificuldades para conciliar a vida pessoal e o trabalho”, observa.

Matemáticas famosas

Amalie Emmy Noether – além de matemática, a alemã de Erlangen, nascida em março de 1882, era física. Trabalhou com destaque na área de álgebra e elaborou o Teorema de Noether, conectando simetria e leis de conservação

Gabrielle-Émile Le Tonnelier de Breteuil – conhecida como Marquesa de Châtelet, nasceu em dezembro de 1706, na França. Aos 27 anos, decidiu dedicar-se à matemática e, entre seus professores, está Voltaire. Com ele, escreveu Elementos da Física Newtoniana. É autora de vários artigos sobre Newton

Hipatia de Alexandria – nasceu em Alexandria por volta de 370 d.C. Foi educada pelo pai, com o qual colaborou na revisão de uma edição dos Elementos, de Euclides. Estudou aritmética, inventou aparelhos mecânicos e deu aulas do Museu de Alexandria

Maria Caetana Agnesi – a filósofa e matemática italiana nasceu em Milão, em maio de 1718. Foi a primeira pessoa a escrever um livro que tratou dos assuntos cálculo diferencial e integral. Sua obra mais famosa é Instituzioni Analitiche, um tratado sobre álgebra

Marie-Sophie Germain – francesa, nasceu em Paris, em 1776. Filha de um negociante bem-sucedido, preferiu ser pesquisadora a se casar. Foi premiada por seu trabalho com o último teorema de Fermat e reconhecida pelas contribuições às pesquisas sobre números primos e a teoria da elasticidade. Temendo preconceitos, adotou o pseudônimo de Monsieur Le Blanc