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05/10/2018

O direito de enterrar os mortos é uma lei que antecede qualquer lei

Antígona de Marie Spartali Stillman.
Poucas coisas me parecem mais desesperadoras do que perder um ente querido e não ter seus restos mortais para, pelo menos, enterrá-los. Dar sepultura é algo importante para a maioria das culturas humanas desde a Pré-História, é algo ligado ao que chamamos de minimamente de humano.

Em uma das peças gregas que eu mais gosto, Antígona (*para download, aqui*), a protagonista sacrifica sua vida para dar sepultura ao irmão, condenado pelo tio, então rei, a apodrecer nos campos e ser devorado pelas feras. Em um dos embates da peça, ela argumenta com o tio-rei que há uma lei não escrita, anterior a qualquer lei humana que a obriga a fazê-lo. Ela termina encerrada com o cadáver do irmão no mesmo túmulo, mas morre acreditando que fez o que é certo, o que é justo, sem recuar.

Tentativa de identificar os desaparecidos
na vala comum do cemitério de Perus, SP.
Debochar das mães e pais que sofrem é ter desprezo por princípios mínimos de civilização. Tem dúvidas? Olhe para seu filho, ou filha, e se imagine procurando sem fim por ele, ou ela, sem encontrar, nunca tendo a certeza que somente o cadáver pode lhe dar. Tenha empatia e escolha bem seu candidato.


04/10/2018

Quantas vezes irão matar Marielle novamente? E quantos mais terão que morrer?


Começam destruindo os marcos de memória, uma placa, neste caso. A placa não é Marielle, que junto com seu motorista foi executada em um crime político, mas a representa. Tente imaginar o que pode começar a acontecer depois da vitória de certo candidato. Vocês acham que esses fascistinhas bombados que quebram placas e as exibem orgulhosamente, terão algum problema em quebrar pessoas - homossexuais, mulheres, supostos esquerdistas, enfim, qualquer um - que cruzem seu caminho, que pareçam se opor aos seus valores elevados? Certamente, não terão. E poderão contar com a impunidade. Em tempo, quem matou Marielle e Anderson?

Para quem não sabe, quem foi Marielle Franco, que caiu aqui de pará-quedas.  Ela foi vereadora do PSOL carioca, negra, de origem pobre, nascida na Favela da Maré.  Foi a quinta parlamentar mais votada do Rio, mãe, feminista, fruto de pré-vestibular comunitário (*eu lecionei em um desses no Rio quando estava na graduação*), socióloga, mestre em administração pública, defensora dos direitos humanos, denunciava as ações das milícias e era relatora da comissão que tem como função fiscalizar a intervenção federal no Estado do Rio foi executada.  Ela teve seu carro abalroado e foi morta com quatro tiros na cabeça em março passado.  Anderson, o motorista,  era um pai de família, trabalhador, com uma criança bem novinha para sustentar, terminou assassinado, também.  Não há dúvidas, hoje, de que foi um crime político.  Quem matou Marielle, não sabemos, mas o Brasil está sendo cobrado internacionalmente por sua incompetência em resolver o crime.

Para se ter uma ideia, os sujeitos que se exibem orgulhosamente são candidatos pelo PSL, um para deputado estadual, outro, federal.  Um deles é advogado, o outro, policial militar.  Não é gente sem noção de como se comportar em púbico, ou em relação à coisa pública, eles fizeram o que fizeram por desejarem a exposição e conhecerem o seu eleitorado.  Será que esse tipo de cidadão brasileiro é a maioria?  Eu acredito que não sejam.

Não vou votar no PT no primeiro turno, não estou pedindo sequer voto para o meu candidato, estou pedindo bom senso.   Há outras opções, mesmo que a sua opção não seja a mesma que a minha. Agora, se você não é fascista, não deveria endossar com seu voto esse tipo de atitude simbólica. Há tempo para parar essa onda. 

Se você é cristão, favor procurar na sua Bíblia onde nosso Deus sanciona esse tipo de escárnio, ou o desprezo pelo pobre, pelo fraco, pelo descaso pela dor do próximo. Procure um texto no Novo Testamento que possa justificar o fascismo, ou a barbárie, ou a covardia, ou ainda a mentira. Se encontrar, mantenha seu voto.

#ELENAO Nem ele, #NEMMOURAO

30/09/2018

Alguns comentários sobre o #ELENAO em Brasília


Ontem, aconteceram em nosso país as maiores manifestações de rua das eleições presidenciais de 2018, a maior manifestação organizada por mulheres da história de nosso país, com eventos em 26 estados e várias cidades do mundo.  No entanto, as nossas TVs praticamente ignoraram as manifestações ou fizeram falsa simetria com pequenas aglomerações de apoio ao candidato do PSL.  O nosso principal jornal local, o Correio Braziliense, fez uma cobertura negligente.  Enfim, decidi colocar minhas impressões da marcha de Brasília.  Elas são pessoais e não estava ligada à coletivos, ou mesmo partidos, para ver anomalias que algumas pessoas pontuaram. O que eu vi, foi uma diversidade enorme de pessoas, a maioria mulheres, marchando contra o fascismo.  Agradeço a leitura:

Cheguei na Rodoviária do Plano Piloto, local da concentração, perto de 14h50. Deixei o carro no Conjunto Nacional e enquanto me dirigia para a concentração vi vários grupos estavam se encontrando pelo caminho.  Estar sozinha foi muito chato, mas não podia levar minha filha de 4 anos para o sol quente, nem expô-la a uma possível situação de violência.  Sim, eu temia uma reação, afinal, aqui, em Brasília, o candidato do PSL lidera as pesquisas com folga.  Na concentração, como estava muito forte o sol, as pessoas se abrigavam em grandes grupos embaixo das árvores que encontravam. Logo dei de cara com duas ex-alunas, fiquei feliz em vê-las.


Havia uma senhora observando a aglomeração com duas meninas, uma deveria ter a idade da minha Júlia, talvez, um pouco mais velha, a outra era mais nova. Eu comentei com ela que estava muito sol, que deixara a minha em casa com o pai. Ela disse que só tinha vindo olhar a movimentação, que não dava para seguir com as duas menininhas, mas que o marido nunca aceitaria ficar com elas em casa...  Coisas que nós, mulheres, enfrentamos.

Perto das 15h, começou a andar a manifestação. Daí, encontrei um colega professor, que é uma pessoa muito querida.  Fiquei feliz em vê-lo. Até a Torre de TV é uma caminhada, pior ainda por ser uma rampa, uma subida mesmo. O sol estava inclemente. Às vezes, passava algum carro buzinando em apoio, um ou outro passava xingando, algo mais raro. De repente, uma pequena confusão, atearam fogo a uma lixeira. Não ficou claro se tinha sido gente do grupo. Uma senhora perto de mim "Eles não pensam nas crianças".


Havia boa quantidade de crianças, algumas em carrinhos, umas no sling (*saudade do tempo em que levava a minha no sling*). A maioria eram maiores, as que não cabem mais no colo. Uma que me surpreendeu foi um menino cego com a mãe (*imagino que fosse*), deveria ter uns 9 anos e estava com a típica bengala. Mais surpreendente ainda era um senhor com duas próteses nas pernas e duas muletas. Parecia não se intimidar com o sol, ou a subida. Algo que me deixou surpresa e feliz era a quantidade de senhoras idosas na marcha, umas visivelmente de classe média, outras com bandeiras da marcha das margaridas (*trabalhadoras rurais*), algumas tinham com certeza mais de 80 anos. Um homem perto de mim comentou com as mulheres de seu grupo "Só mesmo esse monstro pra fazer a gente encarar esse sol de Brasília a esta hora".

Muitas bandeiras dos partidos esperados, PT, PSTU, PC do B. Algumas do PDT. O mais surpreendente foi o povo da REDE. As bandeiras se destacavam do vermelho predominante, das bandeiras do arco-íris e do lilás que era meio que cor tema da marcha por serem verdes e brancas. Já dos partidos de direita não vi nenhuma representação. Parece que a dignidade das mulheres não é problema deles.


Seguimos até a Torre de TV. Já perto, encontrei outro colega professor. Muita gente estava esperando a chegada do grupo no ponto final da manifestação.  Como vi fotos de outros conhecidos e amigos, realmente devia haver muita gente, o que dificultou os encontros mesmo casuais. Os gritos e cantos eram contra Bolsonaro, mas deveriam ter dado atenção à Mourão. Vi pelo menos um cartaz fazendo referência a sus fala infeliz sobre famílias chefiadas por mães e avós. Para mim, o canto deveria ser "Ele não. Nem ele, nem Mourão."

A organização falou em 30 mil pessoas no final, no começo, disseram que a PM dissera que eram 10 mil, mas eu não sou boa para avaliar essas coisas. O fato é que havia muita gente dispersa, o centro de Brasília tem espaços muito amplos. Havia gente na pista, nos gramados, do outro lado do Eixo Monumental, gente que saiu de dentro da feira da Torre para se juntar ao ato final.  Se no início da concentração falaram mulheres dos movimentos sociais, no final, foi a vez, principalmente, das falas das candidatas do PT, PSOL, PSTU e da REDE. Mais espaço para o PT, mas Erika Kokay e Arlete dominam melhor o microfone, eu diria.


O que faltou? Como estávamos perto da Feira da Torre, deveriam falar da proposta de corte do 13º salário e abono de férias.  De novo faltou bater no Mourão, além das taxações já vazadas pelo economista de Bolsonaro (*alíquota única para o Imposto de Renda, da volta da CPMF*). O movimento é de mulheres, mas a opressão será para todos. Seria muito importante lembrar e atrair a atenção de quem trabalha no local.

De resto, foi muito bom ter ido. Ainda estou sem voz, então não pude gritar. E estava com dor de estômago desde antes de sair que só foi piorando. Quando deu 17h, eu comecei a tentar voltar para casa. O mal estar era grande, mas eu não poderia deixar de ir.  Tive que pegar um táxi até o Conjunto Nacional, me arrependi de ter ido de carro.  Se estivesse de condução, poderia ter arrumado jeito de ir direto para casa.  Valeu, no entanto, conversar com o taxista, que disse que não vota em Bolsonaro de jeito nenhum.  Que se multiplique a rejeição até o dia da eleição.

02/06/2018

Faz 80 Dias que mataram Marielle! Quem a matou?


Faz 80 Dias que mataram Marielle. Foi uma execução, um crime político, que vitimou, também, o motorista Anderson. Quem matou Marielle? E o papo de que a polícia resolveria o caso rápido? Não devemos esquecer. Não podemos esquecer.

12/07/2017

Algumas palavras sobre o protesto das senadoras ontem




As senadoras de oposição, que até ano passado eram governo, ocuparam a mesa diretora do senado e atrasaram a votação da nossa (contra)reforma trabalhista.  Elas não podiam fazer mais que isso e seus colegas homens não as apoiaram, ou, pelo menos, nada vi a esse respeito.  Enfim, desde ontem, as senadoras estão sendo demonizadas na mídia por homens, porque queriam garantir os direitos e proteção das mulheres e seus filhos lactantes.  Era esse o motivo, nada iria barrar a reforma como um todo, desejavam uma pequena mudança no texto que garantisse que mulheres grávidas e amamentando não pudessem trabalhar em ambiente perigoso ou insalubre.  


A velha CLT garantia segurança para grávidas e lactantes, o texto previamente aprovado na Câmara dos Deputados tinha sido criticado pela negligência criminosa. Um dos muitos retrocessos, enfim.  Mas, são só mulheres e crianças (*que recebem seu leite, que estão em suas barrigas*) quem se importa com elas?  Só quando é para proibir o direito de aborto é que os ânimos se inflamam.  Aí, tenha certeza de que todos os homens "de deus" vão berrar bem alto.  Contra quem?  As próprias mulheres, pois elas não podem ser donas de seus corpos e os homens, esses mesmos que não se importam se elas correm perigo mesmo grávidas, sabem o que é melhor para elas.



Ver os velhos políticos e jornalistas homens de direita, ou governistas, ou ligados ao lobby empresarial criticando as senadoras não me surpreende.  A reforma estava aprovada, nada fora um levante popular, talvez (*Há!  Há!  Há!*) poderia evitá-la nesse momento.  O problema foi ver mulheres, amigas, repassando no Facebook textos e memes de escritos também por homens de esquerda BABACAS e MACHISTAS fazendo pouco caso das senadoras.  Alguns até responsabilizando-as, porque elas, as senadoras, supostamente não tinham apoiado a greve geral (!!!) e que a saída seria a revolução.  Só digo uma coisa, a RadFem que dormita dentro de mim (*porque, sim, concordo e muito com o chamado feminismo radical*) diria o seguinte a revolução sonhada pelos machos dificilmente será a nossa.  E usei "dificilmente", porque há algo de otimista dentro de mim.


Ora, se perdemos direitos trabalhistas, que dificilmente serão recuperados, é culpa de uma maioria de homens brancos (*ou que se veem e são vistos e tratados como tal*) e ricos no Congresso que definem o futuro desse país. Há mulheres que votaram na reforma, deputadas e senadoras de partidos de direita ou de aluguel, uma ou outra, talvez, patrocinada pelo patronato, mas o mísero voto das poucas mulheres no legislativo brasileiro não define votação dessa monta, nem são elas as chamadas a falar sobre a atual conjuntura do país. Afinal, elas não lideram nada, nem na política, nem nos esquemas de corrupção, nem em seus partidos.  Mesmo que presidentas, e o PT tem uma presidenta, agora, só para citar um exemplo, o partido continua dominado pelos interesses e prioridades ditadas por homens.

O pouco que elas, Gleisi Hoffmann (PT-PR), Fátima Bezerra (PT-RN), Ângela Portela (PT-ES), Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM), Lídice de Mata (PSB-BA), Regina Sousa (PT-PI) e Kátia Abreu (PMDB-TO), fizeram ontem, foi o que pode ser feito nesse ambiente golpista em que vivemos agora. Será que você, amiga que repassa essas coisas, memes e textos desses caras de esquerda debochando delas, realmente crê no que repassa? Acredita que essa utópica revolução desses caras vai pensar em nós ou nos mandará esperar, porque, afinal, há questões maiores a definir?





Economia tem que ser eficiente, não justa.
— Cristovam Buarque (@Sen_Cristovam) July 11, 2017

Terminando, meu senador, o voto do qual mais me arrependo nessa vida (*E olha que votei em Garotinho quando tinha 17 anos*), Cristovam Buarque, votou a favor. E ainda disse no Twitter que economia não precisa ser justa, precisa ser eficiente. Em prol disso, da tal "eficiência" se pode matar, anotem aí. Eu sinto nojo dele, vergonha de alguém que eu imaginava acima da média dos políticos brasileiros, ainda que dado a uns rompantes ridículos.  Enfim, Reguffe, aqui do DF, votou contra.  Ele não teve meu voto na eleição passada, porque se colocou abertamente contra qualquer discussão sobre direito de aborto. A Katia Abreu, aquela que se tornou a amiga simbólica que qualquer um gostaria de ter no desfecho da queda de Dilma, também, votou contra. Acho que algo de realmente bom aconteceu com essa mulher.  Espero que repense outras coisas, também, ela ajudou na ocupação da mesa, ela, que é do PMDB, não precisava se expôr.

30/03/2017

Uma História de Terror do Século XXI


Não acho que vivemos um dos melhores momentos da história da humanidade e esse já é um ponto de partida pessimista para este breve texto.  Agora, às vezes, a gente se depara com umas notícias tão surreais que mesmo já tendo lido muita coisa, acaba ficando impactada.  E eu preciso escrever, preciso dividir essa pequena angústia.  2017, século XXI, e uma mulher de 36 anos é resgatada do cárcere privado no Ceará.  Viveu por 16 anos em um cubículo, sem luz elétrica, nua, sem banheiro em sua cela, sendo alimentada duas vezes ao dia, ela já não era capaz de falar. Era mantida trancada à cadeado e quando vinham lhe dar banho, sempre tentava fugir.  Tétrico, sem dúvida.

Motivo do encarceramento?  Ela engravidou aos 20 anos.  O pai e o irmão não aceitavam uma mãe solteira na família e decidiram escondê-la.  Quando o bebê nasceu, um menino, foi entregue para ser criado por outras pessoas.  A moça estudava, tinha uma vida normal, mas "deu um mau passo", como minha avó, nascida em 1930, diria.  Foi o suficiente para todo esse terror.  Os relatos (*1-2*) falam que ela tinha ficado abalada pelo fim de um relacionamento.  Normal, não é mesmo?  A maioria das pessoas que namora, rompe, enfim, já ficou abalada.  O filho veio de um rápido namoro posterior.  Um acidente?  Talvez e custou-lhe a juventude, atirou-lhe na prisão.


Em que ano estamos de novo?  É possível que o machismo seja tão perene, tão forte, que tais práticas persistam em nosso país?  Será que ninguém deu por falta dela?  No colégio ou faculdade?  As amigas?  Ninguém a procurou?  Toda a cidadezinha era cúmplice?  16 anos!  Quantos foram os cúmplices?  O delegado já localizou o filho.  Como se deu o acolhimento?  A família "adotiva" não sabia de nada?  Não estamos mais no século XIX, tampouco o Nordeste, ou mais especificamente o Ceará, vive em outra temporalidade.  E, pior, poderia ocorrer em qualquer outro canto do Brasil, não se enganem.  Não é o primeiro caso de cárcere privado de mulheres que leio, simplesmente, me pareceu o pior, o mais terrível.  Vivemos um mundo de paradoxos.  Modernidade e atraso, mas é mais fácil, ou menos difícil, que certas coisas aconteçam com as mulheres.  

O problema são as motivações arcaicas do caso, que sinalizam a prevalência do status inferior das mulheres, do fato da frágil honra dos homens depender do controle dos corpos das mulheres.  O responsável maior pela atrocidade, o irmão de 48 anos, está preso e pode pegar no máximo 8 anos de cadeia, mas eu duvido.  O pai, talvez a mente por trás do encarceramento, teve sei lá quantos AVCs e não responde por si.  A mãe da encarcerada, nunca concordou com o acontecido, mas se submeteu, se calou, não é o que o patriarcado exige?  Submissa, adoeceu e está entrevada em uma cama.  Seu único ato de resistência, segundo a matéria, foi adoece e parar de falar.


Eu fiquei me sentindo mal.  É fácil encher a boca e falar que nos rincões do Afeganistão, em um vilarejo perdido da Índia, em uma comunidade tribal em algum canto da África, as mulheres passam poucas e boas.  É aviltante, mas aceitável, pegar o livro Princesa e ler que um pai na Arábia Saudita mandou encarcerar a filha rebelde, mas, aqui, no Brasil, podemos ser uma terra de feminicídios, mas não somos tão arcaicos.  Somos, podemos ser.  Está aí.  E as fotos da prisão só me fazem imaginar o desespero desta mulher.

Desculpem, mas precisava comentar, chorar.  Eu sou mulher e feminista.  O sofrimento de qualquer mulher é meu sofrimento, também.  E eu só posso imaginar e imaginar já dói.  Eu tenho uma menina de três anos.  É terrível pensar que ela possa ser tirada de mim  Torço para que haja punição pelo menos para o irmão, mas qualquer  que seja, nada, nada vai compensar os anos roubados dessa mulher, o direito de maternar que lhe foi tirado, a desumanização, enfim.  Nada.

30/11/2016

"(...) a mulher que suporta o ônus integral da gravidez": comentando a decisão histórica do STF em relação ao aborto no Brasil



No meio de tantas notícias ruins, a PEC 55 passou de lavada no Senado, as dez medidas contra a corrupção foram desfiguradas na Câmara, apareceu uma luzinha no fim do túnel.  Bom enfatizar "luzinha", porque muita gente acordou acreditando que o aborto até os três meses de gestação (*12 semanas*) está liberado no Brasil.  Vamos por partes...

Ontem, a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu que que são inconstitucionais os artigos do Código Penal que criminalizam o aborto até a terceira semana de gravidez.  No entanto, esta decisão só se aplica diretamente ao caso dos médicos presos em 2013 em uma clínica de abortos de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro.  Os médicos e funcionários (*até uma faxineira foi presa*) já estavam soltos desde 2014 por liminar concedida pelo ministro Marco Aurélio de Mello.  Este mesmo ministro teve papel fundamental na descriminalização (*ou despenalização, segundo algumas leituras*) do aborto em caso de anencefalia.  Para ele, não havia razão para manutenção da prisão preventiva dos profissionais.  Concordo com ele.


O caso continuou no Congresso e, desta vez, coube ao ministro Luís Roberto Barroso dar o voto histórico e resumir bem a situação desesperadora de muitas mulheres, a discriminação que sofremos, já que não somos sequer donas de nossos corpos, e tudo mais que a criminalização do aborto produz.  Como a Carta Capital postou vários trechos do voto do ministro, a leitura será longa.  Devo dar ênfase a alguns pontos:
Autonomia da mulher

Como pode o Estado – isto é, um delegado de polícia, um promotor de justiça ou um juiz de direito – impor a uma mulher, nas semanas iniciais da gestação, que a leve a termo, como se tratasse de um útero a serviço da sociedade, e não de uma pessoa autônoma, no gozo de plena capacidade de ser, pensar e viver a própria vida?”

Integridade física e psíquica

“A integridade física é abalada porque é o corpo da mulher que sofrerá as transformações, riscos e consequências da gestação. Aquilo que pode ser uma bênção quando se cuide de uma gravidez desejada, transmuda-se em tormento quando indesejada.”  (...) “A integridade psíquica, por sua vez, é afetada pela assunção de uma obrigação para toda a vida, exigindo renúncia, dedicação e comprometimento profundo com outro ser. Também aqui, o que seria uma bênção se decorresse de vontade própria, pode se transformar em provação quando decorra de uma imposição heterônoma. Ter um filho por determinação do direito penal constitui grave violação à integridade física e psíquica de uma mulher.

Igualdade de gênero

A histórica posição de subordinação das mulheres em relação aos homens institucionalizou a desigualdade socioeconômica entre os gêneros e promoveu visões excludentes, discriminatórias e estereotipadas da identidade feminina e do seu papel social. Há, por exemplo, uma visão idealizada em torno da experiência da maternidade, que, na prática, pode constituir um fardo para algumas mulheres.” (...) “Na medida em que é a mulher que suporta o ônus integral da gravidez, e que o homem não engravida, somente haverá igualdade plena se a ela for reconhecido o direito de decidir acerca da sua manutenção ou não.”

Direitos sexuais e reprodutivos

O direito das mulheres a uma vida sexual ativa e prazerosa, como se reconhece à condição masculina, ainda é objeto de tabus, discriminações e preconceitos. Parte dessas disfunções é fundamentada historicamente no papel que a natureza reservou às mulheres no processo reprodutivo. Mas justamente porque à mulher cabe o ônus da gravidez, sua vontade e seus direitos devem ser protegidos com maior intensidade.

Discriminação social

"Por meio da criminalização, o Estado retira da mulher a possibilidade de submissão a um procedimento médico seguro. Não raro, mulheres pobres precisam recorrer a clínicas clandestinas sem qualquer infraestrutura médica ou a procedimentos precários e primitivos, que lhes oferecem elevados riscos de lesões, mutilações e óbito."

Início da vida

"De um lado, [há] os que sustentam que existe vida desde a concepção, desde que o espermatozoide fecundou o óvulo, dando origem à multiplicação das células. De outro lado, estão os que sustentam que antes da formação do sistema nervoso central e da presença de rudimentos de consciência – o que geralmente se dá após o terceiro mês da gestação – não é possível ainda falar-se em vida em sentido pleno."

"Não há solução jurídica para esta controvérsia. Ela dependerá sempre de uma escolha religiosa ou filosófica de cada um a respeito da vida. Porém, exista ou não vida a ser protegida, o que é fora de dúvida é que não há qualquer possibilidade de o embrião subsistir fora do útero materno nesta fase de sua formação. Ou seja: ele dependerá integralmente do corpo da mãe."

Acompanharam o voto de Barroso, os ministros Rosa Weber e Edson Fachin.    Ainda no voto do ministro Barroso, segundo a Folha de São Paulo, foi destacado que "(...) os principais países democráticos e desenvolvidos, como Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, Canadá, França, Itália, Espanha, Portugal e Holanda, não criminalizam o aborto na fase inicial da gestação. O prazo de três meses foi tirado da comparação com esses países.".  Sim, ao contrário do que muitos Pró-Vida afirmam, o direito de interrupção da gravidez em países que permitem o aborto segue regras e coisas como abortar aos nove meses (*Trump soltou uma dessas em um dos debates com Hillary Clinton*), é fruto da ignorância, ou mentira deliberada.

De qualquer forma, apesar do aspecto positivo para os direitos das mulheres desta decisão, não representa o Supremo como um todo.  Como bem esclareceu o site AZMina, uma turma tem 5 ministros, não 11, como o STF.  Os ministros Marco Aurélio e Luiz Fux votaram pela liberdade dos presos, mas não se pronunciaram sobre o aborto.  De qualquer forma, a decisão acendeu a luz vermelha no Congresso e o ilustríssimo presidente tampão, Rodrigo Maia (DEM), no meio da madrugada, criou uma comissão especial para discutir a questão e a pertinência da decisão do Supremo que, segundo ele, está legislando.  
Trocando em miúdos, o Congresso está questionando a competência do Judiciário em decidir o que é, ou não, constitucional, afinal, é preciso atender à bancada evangélica e outros religiosos (*O Estatuto do Nascituro, por exemplo, é de autoria de um deputado espírita kardecista*).  São os tempos tenebrosos que vivemos.  Enfim, o medo é que no próximo dia 7, o plenário do Supremo conceda o direito de aborto para mulheres infectadas pelo vírus da zika.  Resumindo, foi uma vitória do bom senso, mas só mesmo em um país enlouquecido, como está o nosso, alguém poderia afirmar que o aborto foi descriminalizado em nosso país.  Gerou-se um precedente, mas precedente pode não produzir legislação.  Obviamente, a decisão de Barroso e sua fala foram impressionantes.

Ainda falando de aborto, o Papa Francisco, essa criatura que estranhamente deve ser o líder progressista mais importante do mundo hoje, autorizou o clero católico a conceder o perdão para mulheres que abortaram.  "Como assim?  Ele não tem o direito de decidir..."  Calma, tente entender que, para muitas mulheres católicas, esse ato papal é um alento.  Tente compreender, também, que no momento em que vivemos e levando-se em consideração as condições de produção do próprio Francisco, este seu ato mostrou uma compassividade além do esperado.  Ele não virou pró-escolha, obviamente, mas assumiu uma postura pró-acolhimento.  Tenham certeza que ele só ganha o ódio de muita gente dentro da próprio Igreja ao tomar atitudes assim.  Enfim, eu me surpreendi e achei um passo e tanto, isso não o torna feminista, nem obriga nenhuma feminista a ver o papa como um sujeito legal , ou autoridade na sua vida, só para refletir na importância simbólica do ato. 

De escandaloso e absurdo nesses casos é que sempre homens estejam decidindo o que as mulheres devem fazer com seus corpos, com seus úteros.  Só por isso, já tiramos o quanto de desigualdade e tutela ainda havemos de vencer.  Eu tenho uma menina de três anos, que foi desejada desde o primeiro momento, e gostaria muito que ela chegasse a sua idade reprodutiva sem ter que se preocupar com imposições estatais absurdas fruto da pressão de (falsos) moralistas e religiosos sobre suas escolhas, no máximo, que tivesse que se entender com sua própria consciência.  É pedir muito?

29/05/2016

Gang Rape in Rio de Janeiro and How we’re Dealing with it in Brazil

A 16 year-old girl was raped by 33 men in Rio de Janeiro.  They recorded the abuse and posted it, one of the man showed his face, “She was impregnated by 30!  By 30!  You got it?”, he said mocking.  They showed her unconscious and bleeding, her face and genitals were exposed to the camera, they poked her, and one of them even posted a selfie with the unconscious victim.  One of the “suspects” is her boyfriend.  The incident got to the media, Twitter, Facebook and so on.  

The wave of indignation started with the Feminists but after our deposed President (Dilma Rousseff) publicly showed her sympathy, the new president, Michel Temer, expressed his regret and told the media that a special section in our Federal Police would be created to deal with crimes against women. Funny to hear that from a man that extinguished all the ministries for minorities affairs, women and human rights.  Well, well, police is working BUT

In spite of the international outrage, the three suspects (*one of them the man who showed the face in the horrible video and posted the selfie) were just inquired and set free. The poor girl’s lawyer is now demanding the removal of the chief police officer in charge of the investigations. When the girl was inquired about the rape, he asked her if she used to be engaged in grupal sex activities and so on. In fact, sexism is dictating the whole investigation and it’s a shame for my conutry, but it’s happening now. The girl is a minor and poor, single mother, drug addicted (or used to be), and was an habituee at funk dance parties, for many people around here she deserved the rape or was asking for it. So sad, so shameful. I feel miserable and I know that it’ll not get better.

For example, last week, an actor, former porno star and now a right-wing and meddling in politics, was received by the new Education Minister. This man was representing a project that aims the prohibition of any discussion about race, gender, violence or any “political” issue in classroom. This same man, some months ago, went to a (in) famous talk show and told the audience how he raped a woman. It was seen as just a fun fact of his life. And when a feminist activist demanded an explanation in her social medias was harassed and was sued by him for false allegations.

What I’m saying is our new Government is complacent with rapists. Don’t believe in any real move for this girl or any woman. They are a gerontocratic white male group that took the power and are ruling in the name of false conservative values, because real conservatives would never engage in converstions with self proclamed rapists, even when they refuse to openly admit this.

P.S.: Não costumo postar em ingl^s e sei bem que o texto não apresenta a correção necessária, mas precisava escrever para ser lida em qualquer lugar do mundo. O que ocorreu e ainda está ocorrendo por aqui só mostra o quanto nós, mulheres, valemos pouco.  Nossa palavra, aliás, vale nada.  Nem mesmo as imagens chocantes que rodam pela internet até agora e as palavras ditas no vídeo são suficientes.  O delegado responsável pelo caso não tem certeza de que houve estupro; a juíza a quem foi pedida a sua destituição não acredita que existam evidências de que ele não é o mais adequado para liderar as investigações.  E seguimos assim.  Eu tenho pouca esperança de que allgo efetivo aconteça com algum envolvido neste caso salvo a vítima.

12/05/2016

Dia triste na História do País


Como já se anunciava, o golpe se concretizou.  Forças políticas diversas, a grande mídia toda coligada, o judiciário conivente e um desgaste junto a determinados setores da sociedade.  Não vou fazer defesa rasgada de Dilma, os erros do PT e da presidenta são mais que sabidos, agora, o processo inteiro foi viciado e marcado, como ela mesma disse, pela traição e pela injustiça.

Não há como afirmar que Dilma é honesta, mas é preciso provar que ela não é. Durante todo este vergonhoso processo, não houve nenhuma prova de crime. Se não há prova ou justificação, é golpe. Incompetência, falta de gentileza ou jogo de cintura não são motivos para tirar presidente algum.  Não vou entrar na ladainha do machismo como razão mestra.  Houve machismo, mais que isso, misoginia em todo o processo, mas o que guiou o movimento foi o ódio ao PT e ódio nunca é bom companheiro.


O Slogan do Temer é "Ordem e Progresso". Aí, a Mônica Bergamo na BandNews FM começa a falar que foi bolado por um marqueteiro... Ãn??? Mas não está na bandeira do país, meu povo? Que maldito marqueteiro é este que se apropriou indevidamente do lema da bandeira? Estou confusa... Muito... Muito...

Nessa lógica, abraçou-se o positivismo. Esperemos qual das facetas. Será que é o "tiro, porrada e bomba" nos movimentos sociais do início da República Velha? Um... Será que teremos uma ênfase no ditadura dos bons e melhores?

Nem sei se tenho medo, ou tenho nojo, ou sei lá.  De resto, não ouço panelas.  Nenhuma.Todo o papo de primeiro tiramos Dilma, depois tiramos o resto, morreu.  Os nomes do ministério de Temer são de dar vergonha.  Pela primeira vez, desde o Governo Geisel não há mulheres no ministério.  Nenhuma.  Nenhum ministro que não seja branco apareceu até agora.  Enfim, como disse uma colega no Twitter: 


Sem mais.  Só me acho sortuda de não ter que explicar essa loucura toda para minha filhinha.  Ainda bem que ela ainda é muito jovem para entender o que está acontecendo.

21/12/2012

Existe Pena de Morte no Brasil? Se você é mulher, existe, sim!



Nesta semana um caso gerou espanto e revolta em muita gente na internet: uma mulher residente em Minas Gerais, casada e sofrendo de uma cardiopatia grave, requereu conforme a lei – artigo 128 do código penal – o direito a um aborto terapêutico. A decisão não é definitiva, cabe recurso, mas ela está na oitava semana, e sua saúde e vida estão em risco. Notícia pode ser lida em várias fontes: TJMG, Último Segundo, Estado de Minas, Jornal do Commercio, R7, etc. Sim, é possível a interrupção da gravidez em alguns casos neste país: estupro, risco de vida da mãe e má formação fetal grave (*vide o caso dos anencéfalos*). Só que, apesar da mulher ter todo o direito de interromper a gravidez para preservar a sua vida, o juiz Geraldo Carlos Campos, deliberou que o casal, que já tinha interrompido outra gravidez ano passado, não tomou nenhuma medida contraceptiva (*Será? E se “sim”, e daí?*) e que a gravidez era esperada (*"não deixa de ser um ato voluntário"*), que como pessoas "maduras e esclarecidas", tiveram uma "conduta negligente".

Antes que alguém diga que há um bebê a caminho, assevero que dada a gravidade da saúde da mãe (*ou não teria autorização para abortar anteriormente*), não haverá bebê algum, mas, sim, uma mulher morta ao fim deste processo. A escolha da foto do post foi proposital, ainda mais em um mundo no qual é possível desumanizar ao extremo uma mulher fazendo chamada de jornal na TV com “primeira imagem do herdeiro real” e mostrar a imagem da esposa do neto da Rainha Elizabeth com uma ínfima barriga de três meses. Além disso, a lei lhe assegura o direito a interrupção, não é algo que fique ao bel prazer do juiz. Gravidez acidental acontece, métodos contraceptivos falham, e se formos para os métodos contraceptivos naturais, aqueles defendidos pelos pró-vida religiosos, a abstinência, eles falham mais ainda. Independente da (*suposta*) negligência do casal, a decisão do juiz vai contra a lei e, claro, pune a mulher com a possível morte. Engravidou “porque quis”? Morra. Porque apesar do apoio do marido, é ela, a mulher, que está com sua vida em risco.


Só em uma sociedade na qual as nossas vidas valem tão pouco, poderia acontecer uma decisão como esta. Mulheres são cidadãs de segunda classe, não tem direito de autonomia sobre seus corpos e, sim, podem ter sua vida colocada em risco para castigá-la. Neste caso, vejam bem, nem se trata de garantir a vida do feto, mas de punir mesmo a mulher, especialmente, porque, bem, ela engravidou DE NOVO. É uma covardia e crueldade tão grande que é difícil imaginar... Quer dizer, eu, como mulher, posso imaginar. Eu posso passar pela mesma situação, hipoteticamente falando. Eu posso engravidar, ter direito a interrupção de uma gravidez segundo a lei, procurar os meios legais (*não uma clínica clandestina*) e ter um juiz (*homem*) definindo que, mesmo casada, “não promíscua” (*vocês sabem, que isso pesa muito*), me castigando com a morte, porque, bem, sou uma pessoa esclarecida (*Poxa! Com doutorado e não sabe prevenir uma gravidez?!*) e madura (*chegando lá nos 40 anos*). É aviltante. Eu optaria por uma esterilização, talvez, a moça nem possa se submeter a ela, mas um marido consciente faria uma vasectomia.  Mas é opção, e nem acho que prevista na rede pública para casos como esse, mas nem fui procurar.

Recentemente, uma mulher de origem indiana morreu na Irlanda – país bem mais católico que o nosso, pelo menos nas estatísticas – porque lhe negaram um aborto terapêutico. Aqui, esse juiz se arvorou de “deus” para deliberadamente condenar uma mulher à morte. Pois é isso que a sentença pretende, já que a doença não permitirá que a gravide chegue a bom termo, simplesmente, bem, porque ela engravidou DE NOVO. Só para fechar, reforço que, neste caso, nem se trata de priorizar o feto à mulher que o carrega, trata-se de punição mesmo, condenação à morte ou tortura. Tortura, aliás, é crime e pena de morte não está prevista em nosso código penal. Mas, reforço, mulheres não são cidadãs completas e o judiciário esses dias anda tendo seu já inflado ego midiaticamente reforçado com a idéia de que são o poder acima dos poderes. Ser mulher no Brasil é muito perigoso e isso não é só papo de feministas, como eu, mas algo que se materializa em decisões judiciais como essa.

24/11/2012

Duas Notícias Opostas, um Retrocesso e um Avanço



Sei que faz tempo que não posto coisa alguma. Às vezes, sinto vontade de comentar notícias, mas há coisas tão deprimentes que comentar seria mexer ainda mais na ferida, mas, bem, vou comentar duas notícias opostas publicadas esta semana, uma que aponta para algum avanço na condição das mulheres, outra, para o retrocesso. Vivemos disso, afinal, não é mesmo? Luta contínua, avanços e retrocessos.


A primeira notícia ponta para um backlash inesperado, pelo menos para mim. A Igreja Anglicana, depois de 12 anos de discussão, deliberou no dia 20, terça-feira, que não irá ordenar mulheres como bispos. Para que fosse aprovada, seria necessário 2/3 dos votos do Sínodo Geral que tem 470 votantes entre leigos, bispos e clérigos. Segundo o arcebispo de York, John Sentamu, foram os leigos que derrubaram a moção. Bispos e clérigos tinham aprovado. Segundo a Gazeta do Povo, “Mais de mil integrantes da Igreja Anglicana, incluindo bispos e clérigos seniores, enviaram uma carta ao jornal "The Independent" na segunda-feira (19) pedindo ao Sínodo para decidir em favor da ordenação”. Já o the Times tinha publicado na sexta da semana anterior uma carta assinada por 325 clérigos pedindo que o Sínodo não aprovasse. Segundo eles, isso geraria novas fraturas. O fato é que a cada avanço dos anglicanos (ordenação de mulheres, de homossexuais), o papa da vez, João Paulo II e, agora, Bento XVI, oferecem aos anglicanos a possibilidade de “retorno”, abrindo, inclusive, para os padres casados, já que a Igreja Anglicana estaria “se desviando”. Mas, obviamente, abrir exceção para padres casados, não é desvio, é estratégia utilizada desde a Idade Média... Para tentar evitar uma nova sangria, a Igreja Anglicana deu um passo atrás... Enfim, as mulheres já são ordenadas bispos por ramos da igreja anglicana na Austrália, Nova Zelândia, Canadá e EUA, pois há aqueles que se subordinam às decisões vindas da Grã-Bretanha, outros que tem seus próprios sínodos.


A notícia positiva é que a presidente Dilma Rousseff assinou ontem a promoção da primeira oficial general das Forças Armadas. A capitão de mar e guerra Dalva Maria Carvalho Mendes passará a contra-almirante - patente equivalente a general de brigada, no Exército, e brigadeiro, na Aeronáutica. É preciso ressaltar que a promoção à oficial general não é somente por folha de serviço, mas depende da estima que @ oficial tenha entre seus pares, isto é, nem todo sujeito que chega à coronel – ou seu equivalente – é promovido à general, deve haver consenso entre os outros oficiais generais de que a pessoa merece entrar para este seleto grupo, ou seja, trata-se de uma decisão puramente política, não no sentido partidário, mas quando pensamos que depende de escolhas pessoais. Que ninguém pense que foi decisão da Dilma, pois se não houvesse concordância entre os almirantes, não haveria promoção. Segundo o Globo, a promoção foi decidida em reunião com o ministro da Defesa, Celso Amorim, no Palácio do Planalto. A promovida, Dalva Maria é diretora da Policlínica Naval Nossa Senhora da Glória, no Rio. Ela entrou na Marinha em 1981, tem 56 anos, é viúva e tem dois filhos. A Marinha foi a primeira das três Forças a aceitar mulheres em seus quadros. A participação das mulheres se deu a partir de 1980. Atualmente, dos 2.882 oficiais da Marinha, 33,3% são mulheres; dos 2.933 praças, 6,8%. É ótimo, mas, ao mesmo tempo, curioso, pois a Marinha mantém suas escolas principais – Colégio Naval e Escola Naval – as que estão ligadas à formação dos oficiais da armada, permanecem fechadas para as mulheres. Se a história que está rolando de que o Exército será obrigado a abrir as Agulhas Negras no ano que vem proceder, a Marinha deve ter quer abrir pelo menos a Escola Naval. Lembrem que a AFA abriu em 1992 seu exame de admissçao para as mulheres e já formou umas duas turmas de pilotos com mulheres. A Marinha abriu seus quadros primeiro, é pioneira outra vez, mas continua sendo extremamente conservadora. Vitória, sim, mas com ressalvas.

11/04/2012

STF - Marco Aurélio “a mulher deve ser tratada como fim em si mesma e não como meio”



Hoje o Supremo Tribunal Federal retomou a discussão sobre o direito de interrupção da gravidez em casos de anencefalia. É preciso atentar para a importância desse julgamento, pois o que está em jogo é a cidadania plena das mulheres. Eu defendo o direito de escolha, o respeito aos direitos humanos das mulheres. Ninguém sobrevive sem cérebro, mulheres devem poder escolher sem constrangimentos se desejam, ou não, levar uma gravidez anencefálica até o fim. Direito, vejam bem, não é obrigação. Quem desejar seguir em frente, por amor, por crença, ou o que seja, poderá fazer isso sem problema. Para aqueles que usam de falácias como o tal "ato de amor", eu digo que amor não se impõe, amor não é algo que possa ser estabelecido por outros e imposto a quem está passando por uma situação de angústia e dor profunda: Chega de Torturar as Mulheres!

Quem defende o Direito de Escolha e cidadania plena das mulheres, não obriga ninguém a abortar. Agora, muitos dos (*supostos*) pró-vida estão dispostos a obrigar uma mulher a parir. Sua dor, sua saúde física ou mental, pouco importa. Isso não pode continuar a acontecer em um Estado Laico. Coloque-se no lugar da mulher que está grávida, do companheiro (*quando presente*), da família e, não, de princípios ditados por gente que só mostra sensibilidade em relação à princípios e que parece ter mais compromisso com um feto inviável do que com humanos que existem e (*provavelmente*) continuarão a existir, criar, amar, viver.

Agora, falta aqui no Brasil o compromisso em tentar evitar os casos de anencefalia. Ácido Fólico precisa ser incluído em vários alimentos, como farinhas, biscoitos, macarrão. Não será possível impedir todos os casos, mas poderemos tentar evitar que algo assim - ‘Engravidei duas vezes de bebês anencéfalos’ - aconteça.

08/03/2012

Mais um 8 de Março... Comemorar? Acho que, não!



Hoje é o Dia Internacional das Mulheres, assim mesmo, no plural, porque mulheres não são todas iguais, assim como os homens. Considero o 8 de março um dia de lutas, um dia para lembrar que há muito a se fazer ainda pelo progresso das mulheres no mundo, por uma igualdade de direitos e oportunidades para ambos os sexos. Não é dia de ganhar rosa (*e eu ganhei a minha no portão do trabalho*), ou de receber parabéns. Aliás, o deboche transparece quando vejo colegas homens dizendo uns aos outros “hoje é seu dia”, e o cidadão desmunheca, ri, fala fino... Sim, desprezo pelo feminino e homofobia, mas, claro, que é tudo para fazer humor, não é? Quem precisa de dia é porque não tem dia nenhum. Dia das mulheres, Consciência Negra, do Índio, das Crianças, dos Professores (*que ganham tão mal na maioria dos Estados da Federação*), ... Sim, vamos lembrar dessa turma pelo menos uma vez por ano. E tome matérias cretinas na imprensa.

Ontem, a melhor de todas foi que as mulheres brasileiras são as mais felizes do mundo, afinal, os brasileiros são o povo mais feliz do mundo. Feliz com a corrupção, com o descaso dos políticos, com o confisco de direitos, com a erosão do Estado Laico, etc. Ontem, também, por exemplo, em Anápolis, coração no Bible Belt Católico brasileiro, pertinho da capital da República, a lei orgânica do município excluiu o direito de aborto legal previsto em constituição. Ah, diz um amigo meu “o Supremo e a OAB vão resolver”. Sim, seu sei, mas, enquanto isso, mulheres serão privadas dos seus direitos de cidadania, pois seus corpos são propriedade dos legisladores (homens). E qualquer um sabe que a interrupção de uma gravidez por estupro ou de risco não é algo que se espere. Percebem a perversidade e na véspera do “Dia da Mulher”, assim, no singular, porque essa intervenção nos iguala a todas, somos todas subcidadãs e valemos muito, muito pouco mesmo.

De boa notícia ontem, tivemos a de redução das desigualdades sociais no Brasil. Sim, tenho mil críticas aos governos do PT, mas é preciso reconhecer esse avanço. Como as mulheres estão entre os mais pobres, são as que recebem menores salários, especialmente, quando negras, isso é algo a se comemorar. Pena que a diminuição da desigualdade econômica nem sempre represente maior conscientização. Quer um exemplo, olhe a tirinha abaixo:


Eu adoro o trabalho da autora das tirinhas “Mulher de 30”, mas percebem o quanto ela parece entender pouco do que é a luta pela igualdade, ou, talvez, essa tirinha tenha sido muito infeliz. Primeiro, ela iguala atividades esporádicas – encher o tanque, trocar o óleo – com as cotidianas das quais dependem o bem estar de todos em uma casa. Quer dizer que porque um homem leva o carro ao posto de gasolina – e parece que só eles têm carro e fazem isso, não é? – digamos uma vez por semana (*para trocar o óleo, talvez uma vez a cada muitas semanas*), ele está isento de compartilhar as tarefas domésticas? Percebem a falácia? E quem acompanha as tirinhas sabe que ambas as personagens trabalham fora. Sem a crítica, essa tirinha é só mais um reforço da idéia que tanto agrada aos machistas de que mulheres querem somente os direitos, e, claro, não a partilha real das atividades, dos gastos, das responsabilidades. Mas quem fez a tirinha foi uma mulher! Deve ser verdade então!

Também ontem, uma das mais importantes jogadoras de vôlei do Brasil, uma guerreira em vários aspectos, teve suas fotos sensuais enfocadas em uma matéria. Até aí, nada, mas sempre parece o esforço de provar que atletas são “mulheres de verdade”, porque são sexies e tem um corpo para mostrar. Nada de muito novo se ela não tivesse dito “Mulher é bicho ruim. Eu queria ter nascido homem”. Triste, não é? Especialmente quando ela é um símbolo de força e superação. Para piorar, ela, a mãe e a irmã foram abandonadas pelo marido e pai. E tiveram que enfrentar muitos apertos por causa disso. E “mulher é que é bicho ruim”? Difícil de entender...

É isso. Só considerarei desnecessário que exista um “Dia das Mulheres” quando sites como o Machismo Mata não existirem mais. Quando documentários como o que ganhou o Oscar e que fala sobre mulheres que tiveram seus rostos destruídos por ácido por companheiros e homens que não quiseram ou puderam amar, sejam coisa do passado. Quando homens pararem de legislar sobre nossos corpos como se fossem nossos donos e os donos da verdade, da razão, do mundo. Por enquanto, 8 de março é necessário, ainda que tanta gente, mulheres inclusive, não entendam seu significado. OK. Não disse o motivo da criação da data, certo? Sem problema, o post de 2009 foi muito mais inspirado que este. Dê uma olhadinha lá, pois eu acredito que valha a pena.

25/02/2012

80 Anos de Voto Feminino no Brasil



Ontem, 24 de fevereiro, comemorou-se os 80 anos da concessão do direito de voto às mulheres no Brasil. Dentro do código eleitoral provisório ficou estabelecido que poderiam votar todas as mulheres alfabetizadas e maiores de 21 anos. As diferenças entre o voto feminino e masculino existiam. O voto das mulheres era facultativo, enquanto o dos homens era obrigatório. E a diferença mais gritante – e que foi retirada do texto definitivo – é que mulheres casada só poderiam votar com a autorização por escrito do marido, afinal, ele tinha autoridade sobre ela. No entanto, para que uma mulher fosse eleitora, ela precisava ser remunerada e, claro, provar. Percebem que, apesar do avanço, a maioria das mulheres continuavam ainda excluídas do direito ao voto?

Ainda assim, não pensem, no entanto, que o direito de voto foi um "presente" dos homens, assim, um mimo. Foi fruto de muitas lutas e demandas. Não vou abrir o leque para o mundo, mas só para ficarmos no Brasil, a discussão já existia na época da primeira constituição republicana em 1891. Aliás, oficialmente, as mulheres foram excluídas do direito ao voto nesse momento, já que a Constituição do Império não estabelecia restrições de sexo ou relativas à alfabetização. O critério era ser livre e ter a renda exigida para votar em 1ª instância. Agora, nunca li de mulher que tenha tentado votar, ou, se alguma votou, a informação não foi desenterrada ainda. Como historiadora a minha regra é "nunca diga nunca".

A demanda pelo direito ao voto foi crescendo com a articulação de diversas mulheres, feministas, ou não, mas que demandavam uma cidadania plena. Voto é sinônimo de cidadania, privar as mulheres dele é tira-lhes o direito de participar das decisões, de serem agentes políticos plenos. Como na República Velha havia grande autonomia dos Estados da Federação, em 1927, o Rio Grande do Norte concedeu o direito de voto às mulheres e houve a eleição de primeira prefeita do Brasil, Alzira Soriano de Souza. No entanto, apesar dos protestos das mulheres, que foram para as ruas, seus votos terminaram sendo anulados.

Com a Constituição de 1934 o voto feminino passou a ser obrigatório para todas as mulheres que exercessem profissão pública e remunerada, mas algumas restrições persistiram. Para se ter uma idéia, a exigência de que fossem remuneradas só foi abolida definitivamente em 1965. Imagino que a coisa não fosse cobrada, mas continuava na lei, assim como outras restrições à plena cidadania das mulheres persistem até hoje. Não pense que seus direitos caíram do céu. Não desdenhe da luta de tantas mulheres (e homens, também) de gerações passadas. Há quem reclame do voto obrigatório, e é legítimo discutir sobre esta questão, mas não pense que o direito de voto foi algo que sempre existiu, que as mulheres foram sempre convidadas ou intimadas a participar, muitos desejam até hoje nos privar desse direito. Para terminar, cito a minha orientadora (querida), a prof.ª Tânia Navarro-Swain:
Em tese, [o direito ao voto] representa a não discriminação do feminino no processo político, pois as mulheres podem não apenas votar, como serem votadas. Representa igualmente levar em conta as reivindicações das mulheres no quadro socioeconômico do País e sua intervenção na elaboração de políticas públicas específicas e globais.
Espero que o texto seja útil para algumas reflexões. Eu queria ter terminado ontem, mas a internet estava tão ruim que eu não conseguia navegar nas páginas.

16/04/2011

Minhas Últimas Palavras (ESPERO) sobre o Massacre de Realengo



Queria ter escrito este texto na quinta-feira, e espero que essas sejam as minhas últimas palavras aqui sobre o “Massacre de Realengo” (12). Muitos meios de comunicação, como a Revista Isto é, já sinalizaram que o sujeito foi até a escola para matar meninas (“Apesar de ter escolhido como alvos preferenciais as meninas, o assassino Welington acertou um tiro na cabeça de Rafael Pereira da Silva (...)”), mas a coragem para dizer isso com todas as palavras, dando o nome aos bois – FEMINICÍDIO – só vi nos textos feministas (1-2), e na boca de um dos jornalistas mais extrema-direita desse país. Agora que (Graças ao bom Deus!) os meninos feridos, porque as meninas ele executou mesmo, estão se recuperando (*até os dois que estavam em estado muito grave*), a média deve continuar aquela mesmo: 10 meninas e 2 meninos mortos. Só que a gente continua escondendo falando “12 alunos mortos”, “12 crianças mortas”. Eu fico muito constrangida em ter que concordar (parcialmente) com um facistóide, mas se o resto da mídia, seja a grande imprensa ou os blogs, se recusam a dizer, a aceitar que um sujeito pode, sim, odiar tanto as mulheres e se sentir tão frustrado consigo mesmo a ponto de fazer o que esse cara fez... Paciência! Eu vou continuar clamando no deserto sempre que necessário. Eu não tenho nenhum problema com isso.

Enfim, mas o que me fez postar sobre Realengo de novo foi a exposição que a mídia – a grande imprensa escrita e televisiva – vem fazendo e fotos desse celerado posando com armas, posando com a carta de suicídio, além, claro, dos vídeos. Confesso que quando vi um desses vídeos no Jornal da Globo, quando ouvi a voz áspera, monótona, a fala desconexa do sujeito (*me recuso a escrever no nome dele*), meu estômago revirou. Eu acredito que existam indivíduos que busquem a fama póstuma. Estão dando isso para esse elemento. Agora, ele é famoso! E será ainda mais se continuarmos nesta toada. Logo, várias comunidades e pessoas vão começar a expressar abertamente na internet a paixão por esse monstro que, mesmo que tenha sido vítima de bullying, retornou a sua antiga escola e projetou seu ódio, sua frustração, seu mix de fanatismo religioso, nas meninas e meninos que lá estudavam. Corremos sério risco de termos copy cats, isto é, gente que vai imitar ou tentar imitar esse cara. E, enquanto escrevo, a Record está colocando os vídeos no ar DE NOVO! E a culpa é do Estado que está cedendo essas imagens e vídeos desse sujeito que passa mensagens para aqueles que sofrem bullying os estimulando a... MATAR MENINAS E MENINOS QUE NÃO FORAM OS RESPONSÁVEIS PELA VIOLÊNCIA QUE SOFRERAM!

Esse tipo de cara não deveria ter o direito de fala, não deveria ter o direito de entrar nas nossas casas, porque a TV X ou Y quer audiência. Eu me considero agredida e imagino os pais, mães, irmãos e irmãs, parentes, amigos, dessas crianças, das vítimas fatais e sobreviventes. Já chega! E não estou falando que devemos deixar de discutir o caso. É necessário, muito necessário falar de Realengo, discutir o nosso sistema educacional, falar que foi feminicídio, denunciar como o discurso religioso pode ter terríveis influências sobre mentes já perturbadas... são muitas coisas a discutir neste caso. Aliás, recomendo muito o último texto do Contardo Calligaris sobre o caso. Muito mesmo! Agora, mostrar o rosto do monstro? Sua voz? NÃO! Disso a gente não precisa, ou, pelo menos, eu não preciso!

07/04/2011

'Ele atirava nas meninas para matar', diz aluno que sobreviveu a ataque



Eu não queria estar certa, mas nosso primeiro massacre em escolas (*e que seja o último*) foi, também, um feminicídio (crime de ódio contra mulheres). Será que eu fui a única a juntar dois pontos? Vi o Datena e ele cortou o repórter dizendo que não dava para saber, porque não sabíamos quantos alunos e alunas havia em sala. É o medo de admitir que uma proporção de quase 10 menina para 1 menino em uma escola comum não pode ser NORMAL? Será que a carta enlouquecida do assassino não era sintomático de alguma coisa? Mas os meninos, maioria dos sobreviventes, estão confirmando: "Ele atirava nas meninas para matar", disse um;"Relaxa, godrinho, eu não vou te matar", disse outro; e, por fim, "Ele colocava a arma na testa das garotas e puxava o gatilho, sem pena" e "Ele simplesmente entrou na sala, puxou a arma e começou a selecionar as pessoas que iriam morrer". Eis que o ódio do sujeito pelas mulheres transbordou nisso aí, no assassinato brutal de meninas. Então, quando lembrarem deste crime, lembrem, também, que há crimes que são específicos, feminicídio, assim como homofobia, existem. Crimes assim acontecem todos os dias e, sim, homens heterossexuais são seus agentes na maioria dos casos. É triste, mas a cultura da violência favorece esse tipo de coisa, e a cultura da violência é machista. Por favor, diga ao babaca que saiu papagaiando que meninas morreram em maior número "porque não correm direito" ou "porque ficam paralisadas de medo", que essa pessoa está papagaiando idéias machistas, também.

Minhas Considerações sobre as Meninas Massacradas em Realengo



Estou abrindo esse post por pura especulação e indignação. Primeiro, o crime da escola em Realengo, as 11 alunas mortas, sim, no feminino, porque foram 10 meninas e 1 menino, me deixaram profundamente triste e amargurada. Agora, sim, estamos no primeiro mundo! Temos nosso Columbine... ou algo do gênero. Em segundo lugar, as proporções de 10 meninas para apenas 1 menino entre os mortos e de 13 meninas feridas para somente 3 meninos feridos, me deixaram de cabelo em pé. A carta do assassino, carregada de surtos religiosos (*cristãos, não islâmicos, como muita gente começou a inventar*) e sexuais sobre castidade e pureza, me deixou muito, muito desconfiada. Para mim, e estou fazendo essa afirmação sem nenhuma informação posterior, trata-se de um crime de ódio. Ofereço, para quem duvida, dois outros crimes semelhantes em números: o da Universidade em Montreal, no Canadá e o da Escola Amish, nos EUA.

Em 1989, Montreal, um sujeito invadiu a École Polytechnique, entrou em uma sala, rendeu todos, separou homens de mulheres e disse que estava lutando contra o feminismo. Atirou em nove moças, matou seis. Deixou uma carta de suicídio com uma lista de “feministas” que queria matar. O caso da escola Amish é mais recente. Em 2006, um sujeito invadiu uma escola Amish (*Lembram do filme A Testemunha?*), tomou uma classe como refém, liberou os meninos, ficou com as dez menininhas. Matou cinco, e não terminou o serviço, porque ao perceber a aproximação da polícia, ele se matou.

Agora, alguém me diga qual escola do Rio de Janeiro ou de qualquer lugar do Brasil que não seja curso normal, enfermagem (*e aqui pode nem ser*) ou algo semelhante que tenha uma proporção próxima de 10 meninas para cada 1 menino em sala. Eu lecionei em curso normal e a proporção chegava perto disso. Esse não era o caso da escola do Realengo. Contudo vem alguém e me diz que temos estes números, porque as meninas sentam na frente. E, sim, ninguém se mexeu. Eu dou aula para adolescentes, posso até ter mais meninas na frente, mas a proporção é quase meio a meio.

Desculpem, mas meu desconfiômetro está ligado aqui. Não acho que existam culpados. Não é algo que se espere que aconteça em uma escola brasileira, ninguém pode comprar armas de forma indiscriminada neste país salvo se estiver envolvido com o crime, e torço para que não tenhamos ninguém imitando o criminoso em outras escolas por aí. Eu realmente acredito que ocorreu um crime de ódio e o uso do masculino, o suposto universal, que esconde o número de vítimas mulheres, meninas, na verdade, é ofensivo. Torço, também, para que nenhuma das feridas morra e estou incluindo os três meninos.

Quanto ao assassino, era alguém que sofria de transtorno mental. Deveria estar internado, mas o Estado abriu mão de tratar de forma adequada os doentes mentais, para cortar custos. Claro, que tudo é disfarçado em belas teorias que dizem que é melhor o paciente estar com os seus familiares... Sei! Nem sempre isso é possível e/ou aconselhável. Eu defendo o tratamento humanizado, que hospitais psiquiátricos não pdoem ser prisões, no entanto, é preciso dar todo o apoio especializado aos parentes e ao paciente. Isso, o Estado não tem feito. Eis a minah crítica. Outra coisa, vi gente especulando que o policial executou o sujeito. Armado do jeito que ele estava (*vi a foto dele morto no jornal O Dia, com os carregadores em volta do corpo. Se abrir, está avisad@!*), se o policial o matou, fez o que deveria ter feito naquelas condições. Não lamento isto, eu lamento, sim, pelas crianças. E que me chamem de fascista se quiserem, pois assumo integralmente o que digo. Cabe agora investigar como o sujeito conseguiu as armas, tanta munição e os carregadores rápidos (speed loaders). Qual o significado do seu traje imitando a indumentária militar? E o conhecimento e o treinamento que, apesar de ser mentalmente doente, ele certamente possuía? Isso, sim, é importante!
O relato de uma das meninas sobreviventes (*1-2*) só reforça que o criminoso tinha um modus operandi. a cosia foi planejada e ele escolheu matar meninas. Meninas mesmo, já que ele entrou e a primeira pessoa que encontrou foi uma professora.

01/11/2010

Eu vi a primeira presidente do Brasil ser eleita!



Eu avisei que escreveria um post para o Shoujo Café comentando a eleição de Dilma caso a coisa se concretizasse, e trouxe o post para cá. Da mesma forma que postei sobre a eleição de Obama, comento a de Dilma... Damesma forma, não, com muito mais prazer! Não vou discutir coisas que acho tolas como a frase “chegou a hora do Brasil ter uma mulher presidente”. Mulheres com competência para governar sempre tivemos, mas elas eram descartadas, bloqueadas, simplesmente pelo fato de serem mulheres. Quando princesas, a sua condição nobiliárquica lhes dava está possibilidade, sem passar por eleição. A Princesa Leopoldina exerceu função de governante quando D. Pedro estava na viagem a São Paulo que culminou no famoso sete de setembro. A Princesa Isabel ocupou o lugar do pai várias vezes. Mas eleita, ou mesmo candidata, nenhuma mulher tinha sido. Só de ter dois nomes femininos fortes na eleição, Marina Silva e Dilma, já era uma situação anômala.

Eu realmente não acreditava, quando sua candidatura foi lançada, que Dilma conseguisse chegar ao Planalto. E não por ser mulher, mas por ser desconhecida. Lula era uma estrela antes de eleito e sua popularidade só fez subir. E ele conseguiu transferir sua simpatia e popularidade para Dilma. Carisma é algo que não se transfere, agora, Dilma eleita terá que mostrar a que veio. No entanto, repito o que disse de Obama: Sei que efetivamente o fato dela ser mulher não representa coisa nenhuma, fora do ato simbólico que é ver uma mulher eleita em um país tão machista, tão carregado de preconceitos, e com uma campanha tão suja como aconteceu este ano. Hoje mesmo na Igreja, dois de meus alunos adolescentes me perguntaram em quem eu ia votar. O garoto, que iria votar em Serra, ficou horrorizado porque eu , professora de história, votaria em uma terrorista. Sim, a campanha de Serra fez questão de infamar quem lutou ativamente contra a ditadura, quando ele próprio o fez, ainda que sem pegar em armas. Já a outra menina, que não vota ainda, argumentou que era melhor anular o voto, porque “Dilma é sapatão”. Em uma campanha séria essas mentiras ficariam de fora, mas não foi assim. E a cereja do bolo foi Bento XVI aparecer para dar pitaco. Enfim, por toda a angústia e nojo que Serra me fez passar, desejo a sua morte política. Como ele traiu Alckmin e Aécio, os dois grandes vitoriosos do PSDB, tomara que eles o enterrem sem honras. E gostaria muito de ver o PSDB refundado, retomando seu ideário social-democrata e afastando-se da ala mais repulsiva da direita no Brasil. Será que isso acontecerá?

Enfim, não credito a vitória à Dilma. O vencedor é Lula, mas ela vai governar e irá imprimir a sua marca, juntando-se às outras 17 mulheres que estão no poder no mundo hoje. Pensem em quantos países temos e depois percebam como esse número é pequeno. Por isso mesmo, Dilma já está fazendo história. Sua importância é enorme. E eu sei que ela é capaz de governar com energia e competência. Rindo ou séria, cordial ou incisiva, ela será criticada e terá um governo dificílimo. Será julgada pelas suas rugas, pelas roupas que veste, pela cor do batom, por não ter marido e tudo mais que vocês sabem ser fundamental para um bom governo... feito por uma mulher, claro! E eu gostei da fala da queridíssima Marina Silva no Twitter, lembrou-me um pouco a elegância de McCain depois da vitória de Obama: “Quero parabenizar a ministra Dilma duas vezes. Por sua eleição como presidente e por ser a primeira mulher eleita para o cargo na República. (...) Aquela que era a candidata de uma parte dos brasileiros, a partir de agora, é a presidente eleita de todos nós nos próximos quatro anos”. Era essa a dignidade que muitos esperavam de Serra, mas ele não ofereceu. Não me surpreende. Ele agora deve estar sonhando com um possível golpe.

Enfim, eu estou muito feliz mesmo. Ouvi tanta bobagem por aí, recebi tantos e-mails sujos, ouvi e li tanta bobagem e mentira nos principais jornais e revistas deste país que me sinto de alma lavada. Agora, é esperar a próxima carga. A primeira já vemos no Twitter, é a culpabilização do Nordeste, esquecendo que mesmo em São Paulo e Rio Grande do Sul a diferença entre os candidatos foi apertada e que em Minas Gerais e Rio de Janeiro, dois dos cinco principais colégios eleitorais do Brasil, a vitória de Dilma foi convincente. Serra só ganhou nos estados dominados pelo agronegócio, e só ganhou de lavada em estados de pouca expressividade, como o Acre. Depois de tanto sofrimento, 11 milhões de votos de diferença não podem ser desdenhados... Salvo pelos maus perdedores. E a demonização do nordeste só vem confirmar o racismo e classismo mal disfarçado de alguns sulistas e paulistas que não olham seu próprio rabo. Vejam que São Paulo (*e não pensem que estou dizendo que todo paulista e paulistano votam mal assim*) elegeu Maluf, Clodovil, Enéas e Tiririca com recorde de votos. E, na boa, desse grupo, acho que o Tiririca periga ser o único do lote que talvez se salve em alguma coisa.

Mas voltemos para Dilma. Não sei se ela será uma excelente governante, mas ela nos livra de Serra e isso conta muito. Ela é uma construção (*guardem isso, porque é verdade*) de Lula, que foi o grande vitorioso do pleito. E o momento de grande emoção no discurso de Dilma, o único em um pronunciamento estudado e morno (*e sem menção aos direitos de todos independente de sua "orientação sexual" e com Magno Malta ao fundo*), foi quando o presidente foi citado. Ele triunfou sobre aquilo que há de mais reacionário no Brasil. Não é perfeito, tenho muitas críticas ao presidente Lula, mas é muito melhor que o Serra, a TFP, a ala direitista da Igreja Católica, o próprio Papa, o Silas Malafaia e tantos outros grupos e pessoas, como os que estão xingando o nordeste no Twitter. A maioria do povo brasileiro mostrou algum bom senso desta vez. Os que queriam "queimar a bruxa", talvez estejam agora colocando avatares de luto nos sites de relacionamento. Antes eles do que eu! Desejo à Dilma, que eu não acreditava ver eleita, que se impôs como minha candidata diante de todo esse circo eleitoral, um excelente governo, que ela coloque sua marca pessoal para além do ineditismo de representar todas as mulheres brasileiras. Sei que vamos subir sabe-se lá quantas posições no relatório de desigualdade de gênero. Espero que uma mulher presidente sirva para que tenhamos também mais governadoras, prefeitas, deputadas, senadoras e vereadoras.

Se um dia tiver filhas e filhos, quero poder recontar essa campanha, essa angústia, todas as humilhações que Serra impôs às mulheres, da apropriação discusiva dos nossos corpos, ao trazer o aborto para o centro do debate, até o estímulo à prostituição das suas eleitoras bonitas que deveriam trocar encontros com pelo menos 15 homens por votos. Mas ele perdeu, e toda essa corja terá que engolir uma mulher presidente. Enfim, daqui a pouco acordo para trabalhar e faço questão de ligar a TV para ver o Catão do SBT, o José Neumanne Pinto repetir que Dilma era uma candidata tão ruim que só o Aécio Neves seria capaz de perder para ela. Dilma e Aécio, talvez seu oponente daqui quatro anos, venceram, Serra e a PIG (Partido da Imprensa Golpista) foram derrotados. E vamos comemorar!

P.S.1: Para quem não entendeu a referência à Catão, trata-se de um estadista romano que terminava todo e qualquer discurso, segundo a lenda, com a frase "Ceterum censeo Carthaginem esse delendam" ("Por outro lado, opino que Cartago deve ser destruída"). Isso, porque Cartago tinha humilhado Roma e deveria ser varrida. Neumanne Pinto aproveitava de todas as suas inserções no jornal do SBT para falar mal do PT, poderia ser comentário de qualquer notícia de lingerie à futebol, mas sempre tinha que concluir com alguma crítica ao PT ou à Lula ou à Dilma.
P.S.2: Catão disse que não houve oposição, por isso Dilma venceu. Que todos foram intimidados e chantageados por Lula. Bem, ele não viu a mesma eleição apertada que eu vi. DSeve continuar fazendo a oposição surtada à Dilma só para manter a tradição.