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05/04/2026

As mulheres que acreditam que as mulheres devem perder o direito ao voto. (Artigo traduzido)

Decidi reativar esse blog para colocar traduções de artigos que talvez não combinem muito bem com o Shoujo Café.  O crescimento e fortalecimento desses discursos sobre submissão das mulheres e patriarcado bíblico que lhes retiraria direitos civis para seu próprio bem vêm se expandindo e ganhando corpo.  Primeiro nos EUA, mas, aqui, também.  E eles não estão somente dentro das igrejas, os discursos da manosfera estão disseminados e capturando os mais jovens, principalmente.  Direitos duramente  conquistados podem ser perdidos, ninguém se engane quanto a isso.  Só de ideias como retirar o voto das mulheres estarem sendo publicamente defendidas, é um grande sinal de alerta.  Para quem quiser ler o artigo do New York Times no original, é só clicar.

As mulheres que acreditam que as mulheres devem perder o direito ao voto. 

As defensoras do patriarcado bíblico apoiam o voto familiar: uma família, um voto — o do marido. Elas dizem que a ideia está se popularizando.

Por Vivian Yee.
Reportagem de Prescott, Arizona.
2 de abril de 2026

Culto de domingo na Igreja King's Way em Prescott, Arizona. Crédito: Adriana Zehbrauskas para o The New York Times.

Quando oravam no domingo seguinte ao Dia dos Namorados, como em outros domingos, a maioria das mulheres da Igreja Reformada King's Way, na antiga cidade mineira de Prescott, no Arizona, usava lenços delicados amarrados nos cabelos para demonstrar devoção a Deus. Marybelle East, de 36 anos, usava o seu o tempo todo, disse ela — sete dias por semana — “para que Ele veja que me submeto à Sua autoridade”. À autoridade do marido, isto é.

Seu lenço na cabeça é um lembrete físico do patriarcado bíblico, o tipo de casamento que a igreja prega. "Ele me impede de falar demais", disse ela.  Para ela e as outras mulheres, patriarcado também significa ceder suas vozes políticas aos seus maridos. Elas acreditam que os Estados Unidos seriam um país melhor se as mulheres não pudessem votar.

Os Easts e seus filhos dirigiram por duas horas desde a região de Phoenix para ouvir Dale Partridge, o pastor de 40 anos que atua nos arredores de Prescott, em um espaço para eventos de tijolos e vidro situado entre um aeroporto regional e um modesto campo de golfe.

Nas redes sociais, o pastor atraiu seguidores com comentários incendiários: atacando feministas, católicos e homossexuais, descrevendo a imigração como um “suicídio nacional” e rotulando o islamismo e o hinduísmo como “demoníacos”. Ele também defende a revogação do direito de voto feminino, que ele lista como uma das razões pelas quais “o mundo está desmoronando”.

A aprovação da 19ª Emenda em 1920, a conquista legislativa histórica do movimento para tornar as mulheres cidadãs iguais, possibilitou que mulheres em toda a América votassem. Mas para o Sr. Partridge e um número crescente de cristãos com ideias semelhantes, isso levou os Estados Unidos à decadência nacional. Em vez disso, eles apoiam o “voto por domicílio”. Um domicílio, um voto — o do marido.

Embora muitos americanos vejam isso como um retrocesso impensável a uma época em que as mulheres eram tratadas como cidadãs de segunda classe, os defensores do conceito acreditam profundamente que esse arranjo é o que Deus idealizou para um casamento.

Se há uma década a ideia era apenas mais uma provocação extrema, hoje ela está ganhando adeptos além dos círculos mais radicais. Influenciadores e podcasters do sexo masculino no canto ultraconservador da internet conhecido como manosfera frequentemente defendem a "revogação da 19ª Emenda", e jovens mulheres de extrema direita também apoiam a ideia.

"Eu costumava ensinar isso como: 'Isso é uma coisa marginal que existe por aí'. Agora eu ensino como: 'Isso não é mais marginal'", disse Beth Allison Barr, professora de história da Universidade Baylor, autora de "The Making of Biblical Womanhood" e defensora da igualdade das mulheres na igreja, que afirmou ter ouvido discussões cada vez mais frequentes sobre voto familiar e patriarcado bíblico em círculos evangélicos. "Estão tornando isso mais palatável e razoável."

Até mesmo o Sr. Partridge está surpreso com a rapidez com que a conversa mudou. Há apenas alguns anos, "você seria massacrado se falasse sobre isso", disse ele.

E agora?

O secretário de Defesa Pete Hegseth compartilhou um vídeo no verão passado com pastores de sua denominação ultraconservadora, que defende que os Estados Unidos são uma nação cristã cujas leis devem refletir os princípios cristãos, argumentando que as mulheres deveriam ser proibidas de votar. Em 2024, a popular podcaster conservadora de bem-estar Alex Clark disse em seu programa que "não se importaria se apenas o chefe de família do sexo masculino votasse". Uma proeminente ativista antiaborto que discursou na Convenção Nacional Republicana de 2020, Abby Johnson, também apoiou o voto familiar.

“A adoção precoce de qualquer ideia sempre parece estranha para a maioria”, disse Dale Partridge, um pastor que defende a revogação do sufrágio feminino. Crédito: Adriana Zehbrauskas para o The New York Times.

A igreja que o Sr. Partridge fundou em sua casa com algumas pessoas em 2021 agora tem mais de 100 fiéis que frequentam os cultos todos os domingos, com cinco a dez novas famílias se juntando a cada ano, disse ele. Elas vêm de Phoenix, Minnesota e Las Vegas, do Canadá e até mesmo da Alemanha.

“A adoção precoce de qualquer ideia sempre parece estranha para a maioria”, disse o pastor em uma entrevista recente em Prescott, onde mora com sua esposa, Veronica Partridge, e quatro filhos. “Mas aí, alguns anos depois, a maioria se adapta e você não é tão estranho quanto todos pensavam.”

Para as pessoas da King’s Way, o feminismo é que é estranho, e mulheres exercendo autoridade civil ou votando independentemente é que é antinatural.

“Os resultados falam por si”, disse a Srª. Partridge, de 36 anos, sobre a independência feminina. “Todo mundo parece mais estressado, irritado, frustrado uns com os outros, deprimido.”

Todas as democracias do mundo têm sufrágio universal, e revogar a 19ª Emenda exigiria a aprovação de três quartos dos estados — uma perspectiva extremamente improvável. Mas o Sr. Partridge disse que, à medida que mais americanos adotam os papéis de gênero tradicionais, ele prevê que os estados republicanos criarão barreiras ao sufrágio feminino.

Alguns obstáculos ao voto feminino podem surgir em breve. O presidente Trump e seus aliados republicanos estão pressionando por uma legislação que exigiria comprovante de cidadania para se registrar para votar, uma restrição que, segundo os oponentes, poderia privar do direito ao voto muitas mulheres cujos nomes de casadas não correspondem aos de suas certidões de nascimento ou outros documentos.

Como um modelo ainda não testado, o voto familiar ainda apresenta alguns problemas básicos, reconheceram os membros da King's Way. Mulheres solteiras, sugeriram eles, poderiam ser representadas por pais, irmãos ou tios. Mas, em seu ideal, as mulheres seriam casadas, e apenas com homens. (Casais homossexuais não têm lugar nesse sistema.)

Os defensores do sufrágio feminino afirmam que ele dividiu esposas de maridos, rompendo a unidade do que a Bíblia descreve como "uma só carne". Eles argumentam que o que descrevem como a ternura natural das mulheres as torna perigosamente suscetíveis a apoiar candidatos favoráveis ​​à imigração e políticas liberais.

Conservadores proeminentes, incluindo Allie Beth Stuckey, podcaster cristã, e Ben Shapiro, também criticaram o que Stuckey chama de "empatia tóxica" das mulheres, embora não cheguem a defender a proibição do voto feminino.

"Não permitam que esse amor e compaixão paralisem seu cérebro, especialmente quando estivermos tomando decisões políticas", disse Stuckey em um episódio de podcast de janeiro sobre a oposição de mulheres liberais à repressão à imigração em Minneapolis, acrescentando: "Todas essas qualidades nos tornam mais suscetíveis a mentiras".

Os defensores do voto familiar levam essa ideia ao extremo.

“A política é, por natureza, bélica”, disse Corbin Clarke, de 29 anos, pastor auxiliar da King’s Way e motorista da UPS, que se mudou com a família de Indiana para Prescott em 2023. “As mulheres não foram feitas para a batalha.”

Ele acrescentou: “Elas foram feitas para o amor. Foram feitas para a beleza.”

Sua esposa, Haley Clarke, de 34 anos, concordou prontamente. “Deus as criou assim”, disse ela.

Seu marido a orienta em qualquer questão política difícil de entender, disse ela, mas, como republicanos, “temos a mesma visão sobre tudo”.

Para os defensores, o voto familiar deriva intuitivamente do que eles chamam de patriarcado bíblico. Em casamentos patriarcais, os maridos detêm a autoridade máxima, com as esposas em “submissão”.

Haley Clarke com seu filho pequeno durante um culto de domingo. Crédito: Adriana Zehbrauskas para o The New York Times.

“Se você é o patriarca do seu lar e sua voz é a voz do seu lar, então deveria ser assim também na política”, disse o Sr. Clarke.

Muitos cristãos evangélicos tradicionais há muito adotam uma versão mais moderada, conhecida como complementarismo, que defende que homens e mulheres têm papéis igualmente valiosos, porém diferentes.

Ambas as perspectivas se baseiam no livro de Efésios, no Novo Testamento, que instrui as esposas a “sujeitarem-se a seus maridos, como ao Senhor” e os maridos a “amarem suas esposas, assim como Cristo amou a igreja e se entregou por ela”.

Na prática, muitos casamentos complementaristas podem se assemelhar a casamentos seculares e igualitários. Os casais chegam a um consenso na maioria das decisões. (Talvez uma diferença significativa seja que, em teoria, os maridos têm o poder de desempate, se necessário.)

Embora tenha raízes em ideias mais antigas, o patriarcado bíblico foi popularizado nas décadas de 1990 e 2000 por Doug Phillips, o influente fundador do Vision Forum Ministries, que também defendia o voto familiar. Ele renunciou posteriormente devido a um escândalo de infidelidade.

Atualmente, seu porta-voz mais conhecido é Doug Wilson, o pastor que construiu a denominação do Sr. Hegseth e acredita que os Estados Unidos deveriam ser uma teocracia. Os livros do Sr. Wilson sobre casamento formam um roteiro espiritual para a King's Way e igrejas afins.

"Um homem penetra, conquista, coloniza, planta", escreveu o Sr. Wilson. "Uma mulher recebe, se entrega, aceita."

Os adeptos do patriarcado bíblico desprezam o complementarismo como uma concessão ao feminismo. O resultado — um patriarcado fraco e diluído — leva ao caos conjugal, dizem eles.

O primeiro ano de casamento dos Clarkes, antes de adotarem o patriarcado, foi "o ano mais tumultuado de nossa vida juntos", disse o Sr. Clarke, descrevendo brigas sobre orçamento, mudanças de emprego, quando começar a ter filhos e se deveriam batizá-los. "Era sempre a mesma coisa: 'Quem manda aqui?'", acrescentou. "'A responsabilidade final é minha?'"

Ao aceitar a submissão da esposa, ele disse que isso estabelecia harmonia.

O papel da Srª. Clarke como dona de casa, mãe e "boa companheira" para o marido, segundo ela, proporciona "uma vida muito simples e bonita".

Os casais do King's Way retratam seu estilo de vida como um retorno a uma época melhor, de cercas brancas e famílias numerosas. Eles citam a década de 1950 como inspiração, ou a década de 1880, ou mesmo a América puritana — antes das transformações do feminismo, do controle da natalidade, do divórcio sem culpa, do aborto legalizado e de outras políticas que concederam direitos e independência às mulheres. Os defensores do patriarcado gostariam de ver essas políticas revertidas.

Os críticos afirmam que essa visão do passado ignora a dura realidade para muitas pessoas, incluindo pessoas não brancas e qualquer pessoa que não conseguisse sobreviver apenas com a renda do homem provedor.

“Vende porque é atraente, reconfortante e fala ao nosso anseio por ordem em meio ao caos”, disse Tia Levings, autora de “A Well-Trained Wife”, um livro de memórias sobre sua saída de um casamento patriarcal, que aconselha outras mulheres que sofreram abusos em casamentos semelhantes e escreve um boletim informativo sobre fundamentalismo cristão.

O livro dela descreve como o marido mudou depois de ler os livros do Sr. Wilson sobre casamento, os mesmos que influenciaram o Sr. Partridge. Exigindo que ela o chamasse de "meu senhor", ele começou a bater nela com um cinto por desobedecê-lo. (O Sr. Wilson alertou contra bater em esposas, mas escreveu que as esposas devem ser "conduzidas com mão firme", uma expressão que, segundo críticos, incentiva uma disciplina severa.)

"O objetivo final é ter mulheres em casa, fora da arena, fora da sociedade pública, silenciosas e procriando", disse a Srª. Levings.

No início da história dos Estados Unidos, o conceito de coverture, vigente no direito consuetudinário, não conferia às esposas uma existência legal separada de seus maridos em nome da unidade matrimonial. As esposas não tinham controle sobre a propriedade nem direito legal sobre seus filhos; os maridos eram legalmente responsáveis ​​até mesmo pelos crimes de suas esposas. Na maioria dos lugares, apenas homens brancos proprietários de terras podiam votar. Em alguns, o voto era restrito a homens cristãos — uma restrição que algumas pessoas da King's Way disseram esperar restaurar.

Os estados começaram a flexibilizar a exigência de propriedade no início do século XIX. O Mississippi foi o primeiro a começar a desmantelar o regime de coverture, em 1839.

A julgar pelo que os casais reunidos no King's Way naquele domingo de fevereiro contavam, as esposas de famílias patriarcais eram mais livres do que outras, protegidas dos fardos da tomada de decisões e da participação política.

“Confio no meu marido. Sei que ele é um bom homem, sei que ele é um homem temente a Deus”, disse Tara Caldwell, de 42 anos. Ela, o marido e os cinco filhos estavam visitando a cidade, vindos de Las Vegas. Eles planejam se mudar ainda este ano para se juntarem ao King's Way.

Tara e Jesse Caldwell com seus filhos. Crédito: Adriana Zehbrauskas para o The New York Times.

Submeter-se exigiu prática para a Srª. Caldwell, ex-nutricionista. “Houve momentos em que precisei engolir meu orgulho e pensar: ‘OK, não é isso que eu quero, mas sei que Deus quer que eu me submeta ao meu marido’”, disse ela. “Deus vai me recompensar no céu pela minha obediência.”

Seu marido, Jesse Caldwell, 40, piloto da Força Aérea, disse que o patriarcado bíblico poderia evocar “uma mulher encolhida num canto” e “um marido machista e arrogante que simplesmente a domina”.  Na realidade, disseram eles, ele a consulta rotineiramente sobre as decisões, muitas vezes mudando de ideia depois que ela “apela”.

Os maridos entrevistados enfatizaram que eram obrigados a liderar de acordo com os princípios bíblicos, não como tiranos, e a assumir a responsabilidade pelos pecados de sua família.

É uma visão de masculinidade disciplinada e resoluta que, segundo os maridos, exerce um claro apelo sobre os homens. Em seu sermão sobre casamento naquele domingo, o Sr. Partridge conclamou os homens a assumirem a responsabilidade e proverem para que suas esposas pudessem ser “livres para serem femininas”.

“Vocês precisam assumir a responsabilidade, oferecer a visão, a missão, o foco, a direção para a sua própria família”, disse ele. “Vocês não são caras que ficam jogando videogame o dia todo.”

A Srª. Levings, a escritora, disse ter visto expectativas patriarcais imporem uma pressão irrealista sobre os homens, incluindo muitos que não estão à altura da tarefa.  “Se ele está deprimido, você ainda tem que se submeter”, disse ela. “Se ele é alcoólatra, você ainda tem que se submeter.”

Bailee Jones, que se mudou para Prescott e se juntou à King’s Way com o marido em 2023, disse ter crescido vendo o modelo “oposto”, com sua mãe, uma enfermeira em tempo integral, dominando o pai.

A Srª. Jones, de 31 anos, que trabalhava no Serviço Florestal e no comércio varejista antes de dar à luz no ano passado, escolheu um casamento mais parecido com os da igreja King's Way.  Horrorizada, sua mãe saiu do batizado do filho. "Ela acha que vivo sob uma ditadura e tudo mais", disse a Srª. Jones no almoço comunitário da igreja após o culto.  "O único ditador na nossa casa é esse cara", disse o marido, Zachary Jones, de 32 anos, sorrindo para o bebê, que estava sentado em um canguru à frente deles.  Ainda assim, a Srª. Jones disse que estava inclinada a perdoar a mãe. Afinal, ela ainda era da família.

Mas o Sr. Jones, promotor público, via as coisas de forma diferente. Embora tivesse havido um "descongelamento" no relacionamento, ele disse que precisava ser firme sobre o que era bom para a família — o que poderia não incluir ver a mãe com muita frequência.

Ele acrescentou que ainda discutia as decisões com a esposa. Às vezes, admitia que estava errado.

“Quem gostaria de viver num casamento ou numa casa onde a esposa o odeia?”, disse ele. Ainda assim, “dar a alguém que você ama tudo o que ela quer, se esse desejo não estiver alinhado a um propósito maior, também não é bom”.

Mais de 100 pessoas frequentam a igreja King’s Way todas as semanas. Crédito: Adriana Zehbrauskas para o The New York Times.

Vivian Yee é repórter do The New York Times e escreve sobre mulheres nos Estados Unidos, com foco nas mudanças culturais e políticas durante os anos de Trump.

02/06/2018

Faz 80 Dias que mataram Marielle! Quem a matou?


Faz 80 Dias que mataram Marielle. Foi uma execução, um crime político, que vitimou, também, o motorista Anderson. Quem matou Marielle? E o papo de que a polícia resolveria o caso rápido? Não devemos esquecer. Não podemos esquecer.

12/07/2017

Algumas palavras sobre o protesto das senadoras ontem




As senadoras de oposição, que até ano passado eram governo, ocuparam a mesa diretora do senado e atrasaram a votação da nossa (contra)reforma trabalhista.  Elas não podiam fazer mais que isso e seus colegas homens não as apoiaram, ou, pelo menos, nada vi a esse respeito.  Enfim, desde ontem, as senadoras estão sendo demonizadas na mídia por homens, porque queriam garantir os direitos e proteção das mulheres e seus filhos lactantes.  Era esse o motivo, nada iria barrar a reforma como um todo, desejavam uma pequena mudança no texto que garantisse que mulheres grávidas e amamentando não pudessem trabalhar em ambiente perigoso ou insalubre.  


A velha CLT garantia segurança para grávidas e lactantes, o texto previamente aprovado na Câmara dos Deputados tinha sido criticado pela negligência criminosa. Um dos muitos retrocessos, enfim.  Mas, são só mulheres e crianças (*que recebem seu leite, que estão em suas barrigas*) quem se importa com elas?  Só quando é para proibir o direito de aborto é que os ânimos se inflamam.  Aí, tenha certeza de que todos os homens "de deus" vão berrar bem alto.  Contra quem?  As próprias mulheres, pois elas não podem ser donas de seus corpos e os homens, esses mesmos que não se importam se elas correm perigo mesmo grávidas, sabem o que é melhor para elas.



Ver os velhos políticos e jornalistas homens de direita, ou governistas, ou ligados ao lobby empresarial criticando as senadoras não me surpreende.  A reforma estava aprovada, nada fora um levante popular, talvez (*Há!  Há!  Há!*) poderia evitá-la nesse momento.  O problema foi ver mulheres, amigas, repassando no Facebook textos e memes de escritos também por homens de esquerda BABACAS e MACHISTAS fazendo pouco caso das senadoras.  Alguns até responsabilizando-as, porque elas, as senadoras, supostamente não tinham apoiado a greve geral (!!!) e que a saída seria a revolução.  Só digo uma coisa, a RadFem que dormita dentro de mim (*porque, sim, concordo e muito com o chamado feminismo radical*) diria o seguinte a revolução sonhada pelos machos dificilmente será a nossa.  E usei "dificilmente", porque há algo de otimista dentro de mim.


Ora, se perdemos direitos trabalhistas, que dificilmente serão recuperados, é culpa de uma maioria de homens brancos (*ou que se veem e são vistos e tratados como tal*) e ricos no Congresso que definem o futuro desse país. Há mulheres que votaram na reforma, deputadas e senadoras de partidos de direita ou de aluguel, uma ou outra, talvez, patrocinada pelo patronato, mas o mísero voto das poucas mulheres no legislativo brasileiro não define votação dessa monta, nem são elas as chamadas a falar sobre a atual conjuntura do país. Afinal, elas não lideram nada, nem na política, nem nos esquemas de corrupção, nem em seus partidos.  Mesmo que presidentas, e o PT tem uma presidenta, agora, só para citar um exemplo, o partido continua dominado pelos interesses e prioridades ditadas por homens.

O pouco que elas, Gleisi Hoffmann (PT-PR), Fátima Bezerra (PT-RN), Ângela Portela (PT-ES), Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM), Lídice de Mata (PSB-BA), Regina Sousa (PT-PI) e Kátia Abreu (PMDB-TO), fizeram ontem, foi o que pode ser feito nesse ambiente golpista em que vivemos agora. Será que você, amiga que repassa essas coisas, memes e textos desses caras de esquerda debochando delas, realmente crê no que repassa? Acredita que essa utópica revolução desses caras vai pensar em nós ou nos mandará esperar, porque, afinal, há questões maiores a definir?





Economia tem que ser eficiente, não justa.
— Cristovam Buarque (@Sen_Cristovam) July 11, 2017

Terminando, meu senador, o voto do qual mais me arrependo nessa vida (*E olha que votei em Garotinho quando tinha 17 anos*), Cristovam Buarque, votou a favor. E ainda disse no Twitter que economia não precisa ser justa, precisa ser eficiente. Em prol disso, da tal "eficiência" se pode matar, anotem aí. Eu sinto nojo dele, vergonha de alguém que eu imaginava acima da média dos políticos brasileiros, ainda que dado a uns rompantes ridículos.  Enfim, Reguffe, aqui do DF, votou contra.  Ele não teve meu voto na eleição passada, porque se colocou abertamente contra qualquer discussão sobre direito de aborto. A Katia Abreu, aquela que se tornou a amiga simbólica que qualquer um gostaria de ter no desfecho da queda de Dilma, também, votou contra. Acho que algo de realmente bom aconteceu com essa mulher.  Espero que repense outras coisas, também, ela ajudou na ocupação da mesa, ela, que é do PMDB, não precisava se expôr.

25/08/2016

A perseguição ao burkini é uma forma de violência contra as mulheres


Nos últimos dias, a polêmica em torno da proibição do burkini, uma roupa de banho pensada por uma mulher muçulmana para atender às necessidades de outras mulheres da mesma fé (*e de quem mais quiser usar*), nas praias de Cannes e em outras regiões da França despertou polêmica.  Segundo a legislação baixada por homens, a roupa de banho é inapropriada e está em desacordo com os costumes do país.  Existe roupa certa para ir à praia?  Enfim, parece que existe.

Abalada por uma série de atentados, o país parece particularmente sensível em relação aos muçulmanos, especialmente, aqueles que podem ser identificados como tal.  Nesse sentido, as mulheres muçulmanas que usam qualquer roupa que as identifique como tal, seja o simples véu (hijab), ou outro símbolo qualquer, como o burkini, se tornam alvo preferencial de agressores e, como se vê nesse momento, legisladores preocupados com os bons costumes.

Seqüência da humilhação.
Eu pensava em escrever alguma coisa sobre a questão, mas estava e estou sem tempo, no entanto, o incidente acontecido em Nice, cidade do horrendo atentado em que um homem muçulmano atropelou com um caminhão centenas de pessoas que estavam assistindo aos fogos do 14 de julho, me deixou realmente chocada.  Uma dona de casa de 34 anos, ex-comissária de bordo, estava com os filhos na praia.  Abordada por quatro policiais, ela foi multada em 11 euros.  Não satisfeitos, as quatro autoridades obrigaram a mulher a se despir de parte de suas roupas na frente de todos e assistida por seus filhos pequenos em prantos.  Algumas pessoas que viam o espetáculo gritavam "Vão para casa!" e "Somos católicos!".  Horror total.

A cena me trouxe a mente coisas como policiais, sempre homens, medindo o comprimento de roupas de banho de mulheres nos anos 1920 e 1930, até as judias sendo obrigadas a se despir na frente de guardas homens ao chegarem nos campos de concentração ou extermínio nazistas, ou ainda as iranianas compelidas pela violência física ou verbal a usarem o véu nos tempos da Revolução Islâmica Iraniana.  Violência contra as mulheres no seu nível mais básico, porque impotente diante da autoridade, as mulheres se veem reduzidas aos seus corpos que devem, ou ser escondido, ou ser despido, para a satisfação dos poderes patriarcais instituídos.  


Jovem surfista da Califórnia.
Eu entendo e apoio a proibição do niqab e da burka, aquilo que chamamos de véu integral, por roubarem das mulheres a sua identidade, o seu rosto.  Sei que a proibição está muito mais ligada a preocupações de segurança do que propriamente interesse pelos direitos humanos das mulheres, mas vá lá, eu compreendo e acredito que seja justo.  Eu apoio a lei que proíbe o uso de símbolos religiosos ostensivos nas escolas públicas como forma de resguardar a secularidade e promover a socialização.  Há escolas particulares para quem considera essas questões fundamentais, fora que fundamentalistas nunca estão satisfeitos, pedem uma unha e, logo, logo, lhe pediram o pé inteiro, ou a perna.  Agora, qual o mal no tal burkini?

A criadora da peça, a estilista Aheda Zanetti, nascida no Líbano e residente na Austrália, criou a peça para dar liberdade às mulheres muçulmanas que não desejavam (*ou podiam*) usar biquínis ou maiôs convencionais de se divertirem na praia.  Algumas dessas mulheres se viam privadas, por suas crenças pessoais, ou por pressão da comunidade, de praticarem uma série de atividades.  O burkini aparece como uma opção espetacular. A criadora, inclusive, partiu da sua própria experiência como menina e adolescente muçulmana castrada de uma série de atividades por ser mulher e somente por isso. A peça se tornou famosa, aliás, ao ser adotada por mulheres muçulmanas que se tornaram salva-vidas nas praias australianas.  


Aheda Zanetti, a criadora do burkini.
A jovem salva-vidas que se tornou garota propaganda do burkini.
Em vários formatos e cores – basta procurar – o burkini tornou-se popular em vários países e é usado, também, por mulheres que desejam se proteger do sol.  Enfim, ainda que por trás do uso do burkini também esteja as falsas premissas de modéstia que pesam sobre as mulheres, afinal, a depender da leitura religiosa monoteísta (*estou pensando dentro dela*) patriarcal, ou somos as sedutoras, ou os homens são os incontroláveis e, por um motivo, ou outro, cabe às mulheres esconderem seu corpo ou se absterem de certas atividades.  Por exemplo, causou escândalo em Israel que um importante rabino ultra-ortodoxo tenha ordenado que pais e mães proíbam que suas meninas maiores de 5 anos possam andar de bicicleta nas ruas, porque, bem, isso é imoral e pode despertar os desejos dos homens.  É mais fácil, claro, castrar as meninas do que manter os pedófilos sob controle vitimizar os pedófilos.

Voltando ao burkini, o que me faz simpatizar com a criadora é que ela tem completa noção das pressões que as mulheres muçulmanas sofrem e ela lhes oferece uma possibilidade.  As fundamentalistas de verdade não irão usar o burkini, pois ou não irão à praia, para se misturar com os infiéis, ou entraram com seus chadors ou abayas, sem nem se importarem, isso, claro, se forem flexíveis.  O burkini me parece, portanto, algo de mulher para mulher e preocupado com as suas necessidades muito mais do que com o olhar masculino.  


Exemplo de roupa "modesta"
para fundamentalistas cristãos.
O burkini é o único caso de roupa de banho “religiosa”, por assim dizer?  Não, entrem aqui na página da “Wholesome Wear”, que vende roupas de banho "que destacam seu rosto, não o seu corpo" (“Swimwear that highlights the face, not the body.”), e observem que fundamentalistas cristãs também têm opções.  E, vejam bem, ao contrário do burkini, esse tipo de traje de banho se vende como algo que lhe torna melhor, superior, às outras mulheres.  A Aheda Zanetti parece que nunca foi pega dizendo essas abobrinhas, mas só defendendo que mulheres e moças muçulmanas também têm direito de se divertir em paz... Até que vieram os franceses... 

Não há justificativa para a proibição da peça, salvo se as autoridades acreditem que as mulheres são obrigadas a expor o seu corpo, afinal, este é um dever feminino.  Obviamente, não é qualquer corpo, como as muitas propagandas nos ensinam, mas o corpo jovem e esguio, os demais não são lá muito aceitáveis, também.  O que este caso todo está mostrando para o mundo é que existe, efetivamente, islamofobia, especialmente, em relação às mulheres (*coisa que eu já tinha dito na resenha do livro do Charb*).  Motivo?  Seja por opção pessoal (*e não vou discutir assujeitamento religioso aqui, OK? Adesão não significa falta de coerção*), ou por coerção do grupo (*família, comunidade, Estado*), elas são alvo fácil.  


Alguém perguntou se ela queria usar o véu?
E se perguntada, ela poderia dizer a verdade?
Aliás, em tempos de Olimpíada, puseram para circular fotos de atletas iranianas antes e depois da Revolução Islâmica.  A idéia, claro, era condenar o que temos hoje, mostrar o retrocesso.  Para alguns, deveriam proibi-las de participar dos jogos.  Aí, ninguém tira um segundo para pensar que elas, as atletas atuais, são umas guerreiras, porque, bem, ou elas usam o véu - e quem exige é o Estado - ou elas não podem praticar esportes.  Mas é o Irã, então convém descer a lenha sem se perguntar como é que as coisas são na Arábia Saudita, por exemplo, que só muito recentemente começou a discutir a possibilidade da educação física em escolas públicas para meninas.  Do outro lado, a turma que vê empoderamento em tudo mostrando as atletas muçulmanas veladas e celebrando a diversidade.  Concordo que foi muito bonita a foto das duas atletas no vôlei de praia, e uma egípcia usava véu e outra não usava.  Só que elas deixaram claro que sem usar mangas e calças compridas, elas não podem jogar em seu país.  Quais os limites da sua liberdade?  Enfim, cuidado aí, porque duvido que a menina de 18 anos do Irã que levou bronze no  taekwondo preferia estar com ou sem véu.  

Marcadas que são em seus corpos, afinal, a campanha recente é toda para fixar na nossa cabeça que muçulmana sem véu não é muçulmana de verdade, ainda que isso não se comprove no social, elas se tornam vulneráveis aos diversos ataques.  E, agora, como o caso de Siam mostra, também, às piores humilhações.  De novo, o que esse caso pavoroso expõe é que quem mais se preocupa em cobrir ou descobrir mulheres são os homens.  E aí, vale despir ou vestir, e caberia aos homens definir o que é legítimo para as mulheres usarem, ou não usarem.  Enquanto isso, claro, boa parte dos homens religiosos consegue se misturar sem grandes problemas, afinal, basta cercear a liberdade das suas mulheres para ganhar, ao que parece, pontos com a divindade.


Esse quadrinho também me causa muita agonia.
E termino deixando o link para o texto de uma ex-muçulmana sobre a questão e um trecho no qual ela fala da falsa simetria entre biquiniXburkini para quem não entendeu e fica repassando esse quadrinho acima como se tudo fosse a mesma coisa: “Quando a aceitação de uma mulher por parte da comunidade, seu respeito, dignidade, empregabilidade, possibilidades de casamento, segurança física, emancipação, a mobilidade social, acesso a instituições sociais, a liberdade, e autonomia no o seu dia-a-dia depender da inabalável adesão pública ao biquíni, então nós poderemos fazer essa comparação.  Quando uma mulher não puder deixar sua casa vestindo outra coisa senão um biquíni sem ser considerada imoral e seu valor humano e honra familiar ficarem comprometidas, então nós poderemos fazer essa comparação.  Quando existirem forças legais, sociais e extrajudiciais graves ligando a segurança, bem-estar, e meios de subsistência de uma mulher a sua adesão ao biquíni, então nós poderemos fazer essa comparação.”

29/05/2016

Gang Rape in Rio de Janeiro and How we’re Dealing with it in Brazil

A 16 year-old girl was raped by 33 men in Rio de Janeiro.  They recorded the abuse and posted it, one of the man showed his face, “She was impregnated by 30!  By 30!  You got it?”, he said mocking.  They showed her unconscious and bleeding, her face and genitals were exposed to the camera, they poked her, and one of them even posted a selfie with the unconscious victim.  One of the “suspects” is her boyfriend.  The incident got to the media, Twitter, Facebook and so on.  

The wave of indignation started with the Feminists but after our deposed President (Dilma Rousseff) publicly showed her sympathy, the new president, Michel Temer, expressed his regret and told the media that a special section in our Federal Police would be created to deal with crimes against women. Funny to hear that from a man that extinguished all the ministries for minorities affairs, women and human rights.  Well, well, police is working BUT

In spite of the international outrage, the three suspects (*one of them the man who showed the face in the horrible video and posted the selfie) were just inquired and set free. The poor girl’s lawyer is now demanding the removal of the chief police officer in charge of the investigations. When the girl was inquired about the rape, he asked her if she used to be engaged in grupal sex activities and so on. In fact, sexism is dictating the whole investigation and it’s a shame for my conutry, but it’s happening now. The girl is a minor and poor, single mother, drug addicted (or used to be), and was an habituee at funk dance parties, for many people around here she deserved the rape or was asking for it. So sad, so shameful. I feel miserable and I know that it’ll not get better.

For example, last week, an actor, former porno star and now a right-wing and meddling in politics, was received by the new Education Minister. This man was representing a project that aims the prohibition of any discussion about race, gender, violence or any “political” issue in classroom. This same man, some months ago, went to a (in) famous talk show and told the audience how he raped a woman. It was seen as just a fun fact of his life. And when a feminist activist demanded an explanation in her social medias was harassed and was sued by him for false allegations.

What I’m saying is our new Government is complacent with rapists. Don’t believe in any real move for this girl or any woman. They are a gerontocratic white male group that took the power and are ruling in the name of false conservative values, because real conservatives would never engage in converstions with self proclamed rapists, even when they refuse to openly admit this.

P.S.: Não costumo postar em ingl^s e sei bem que o texto não apresenta a correção necessária, mas precisava escrever para ser lida em qualquer lugar do mundo. O que ocorreu e ainda está ocorrendo por aqui só mostra o quanto nós, mulheres, valemos pouco.  Nossa palavra, aliás, vale nada.  Nem mesmo as imagens chocantes que rodam pela internet até agora e as palavras ditas no vídeo são suficientes.  O delegado responsável pelo caso não tem certeza de que houve estupro; a juíza a quem foi pedida a sua destituição não acredita que existam evidências de que ele não é o mais adequado para liderar as investigações.  E seguimos assim.  Eu tenho pouca esperança de que allgo efetivo aconteça com algum envolvido neste caso salvo a vítima.

01/12/2012

As Mulheres Negras e os Direitos Civis nos EUA




Desde o fim da Reconstrução Radical (1865-1877) vigoraram no Sul dos Estados Unidos as chamadas Leis Jim Crow (1876-1965), que legitimavam a Segregação Racial com base na premissa (*falsa*) "Separados, mas Iguais". Qualquer pessoa que tenha assistido mesmo o filme mediano Histórias Cruzadas, entende o que estou dizendo. Pois bem, Rosa Parks foi presa em 1 Dezembro de 1955, porque não quis se levantar para que um homem branco pudesse sentar. Hoje é dia de lembrá-la. Sua coragem, seu orgulho, foi o estopim para que outros negros e negras se mobilizassem nos EUA para que as leis racistas-segregacionistas fossem derrubadas. 

O sistema de transporte público de Montgomery, Alabama, sofreu boicote por 381 dias, até que as autoridades cederam a aboliram o sistema que estabelecia que negros sentavam no fundo do ônibus, brancos na frente e se o ônibus enchesse, a cada branco que entrasse, um negro ou negra deveria ceder o lugar.  Rosa Parks não foi a primeira mulher, nem a primeira pessoa, a se rebelar contra a segregação nos transportes públicos em algum Estado do Sul, antes dela, pelo menos três mulheres ganharam notoriedade por fazer o mesmo: Irene Morgan (1946), Sarah Louise Keys (1955), e Claudette Colvin (1955).


 Irene Morgan era secretária, e se recusou a levantar na cidade de Middlesex County, Virginia. Não somente isso, ela entrou em luta corporal com o xerife e outra autoridade masculina para não deixar o veículo. Foi presa, seu caso se arrastou na justiça, e foi parar na Suprema Corte. Imaginem o risco que essa mulher correu, e, claro, o mal exemplo, já que não somente se rebelou, mas partiu para a luta corporal... Sarah Keys (siga o link) era militar, das primeiras a se graduar na academia militar, das primeiras militares negas a cursar Direito com verba do Exército, e estava voltando para uma licença em sua cidade natal, Washington, Carolina do Norte. Ela tomou o ônibus em Fort Dix, New Jersey, seguiu até Washington D.C., onde embarcou em um ônibus sulista. Sentou-se na quinta fileira. Quando houve troca de motorista na pequena  Roanoke Rapids , o condutor exigiu que ela fosse para o fundo do ônibus e cedesse o lugar para um fuzileiro branco. Ela se recusou. Foi presa. O caso foi parar na Suprema Corte. 

Já Claudette Colvin, uma adolescente de 15 anos, voltando da escola, foi a primeira mulher em Montgomery a resistir às leis segregacionistas em ônibus, nove meses antes de Parks, mas por ser uma menina, que poderia ser taxada de "rebelde", não foi considerada como um símbolo adequado ao movimento de direitos civis.  Na verdade, e isso não diminui Rosa Parks, mas mostra o quanto uma imagem mais conservadora, todas as outras eram jovens, Parks já tinham 43 anos, por exemplo, se presta melhor como propaganda em uma sociedade igualmente conservadora... Hoje não é dia de lembrar somente de Rosa Parks, mas de todas essas outras mulheres e ressaltar que a luta por direitos iguais não acabou. 



22/03/2012

Polícia prende homens que planejavam massacre contra estudantes em Brasília



Eu nem estava sabendo que esses monstros estavam planejando atacar aqui em Brasília, na UnB. Espero realmente que os dois presos sejam os primeiros de muitos e que passem todos os seis anos (*pena máxima*) na cadeia. Infelizmente, os semeadores de ódio - que se escondem atrás do suposto direito de liberdade de expressão - são muitos, mas eu acredito que a mobilização é capaz de tirar vários deles de circulação. Racismo e pedofilia são crimes previstos em lei e homofobia e misoginia/sexismo deveriam ser, também. Se der cadeia, então, duvido que alguns desses bons moços (*homens, brancos, heterossexuais, supostamente cristãos, direitistas*) vão arriscar passar uma temporada no xilindró. Percebam que, apesar da reportagem dizer "gente", estava escrito "vagabundas e esquerdistas". Para esses sujeitos, não se enganem, qualquer mulher é vagabunda, não somente as que o senso comum aponta como tal. Enfim, precisava postar. Já desconfiava que o sujeito de Realengo tinha colegas e incentivadores. Foram meses de denúncias e investigações, pelo menos alguma coisa aconteceu com eles.

08/03/2012

Mais um 8 de Março... Comemorar? Acho que, não!



Hoje é o Dia Internacional das Mulheres, assim mesmo, no plural, porque mulheres não são todas iguais, assim como os homens. Considero o 8 de março um dia de lutas, um dia para lembrar que há muito a se fazer ainda pelo progresso das mulheres no mundo, por uma igualdade de direitos e oportunidades para ambos os sexos. Não é dia de ganhar rosa (*e eu ganhei a minha no portão do trabalho*), ou de receber parabéns. Aliás, o deboche transparece quando vejo colegas homens dizendo uns aos outros “hoje é seu dia”, e o cidadão desmunheca, ri, fala fino... Sim, desprezo pelo feminino e homofobia, mas, claro, que é tudo para fazer humor, não é? Quem precisa de dia é porque não tem dia nenhum. Dia das mulheres, Consciência Negra, do Índio, das Crianças, dos Professores (*que ganham tão mal na maioria dos Estados da Federação*), ... Sim, vamos lembrar dessa turma pelo menos uma vez por ano. E tome matérias cretinas na imprensa.

Ontem, a melhor de todas foi que as mulheres brasileiras são as mais felizes do mundo, afinal, os brasileiros são o povo mais feliz do mundo. Feliz com a corrupção, com o descaso dos políticos, com o confisco de direitos, com a erosão do Estado Laico, etc. Ontem, também, por exemplo, em Anápolis, coração no Bible Belt Católico brasileiro, pertinho da capital da República, a lei orgânica do município excluiu o direito de aborto legal previsto em constituição. Ah, diz um amigo meu “o Supremo e a OAB vão resolver”. Sim, seu sei, mas, enquanto isso, mulheres serão privadas dos seus direitos de cidadania, pois seus corpos são propriedade dos legisladores (homens). E qualquer um sabe que a interrupção de uma gravidez por estupro ou de risco não é algo que se espere. Percebem a perversidade e na véspera do “Dia da Mulher”, assim, no singular, porque essa intervenção nos iguala a todas, somos todas subcidadãs e valemos muito, muito pouco mesmo.

De boa notícia ontem, tivemos a de redução das desigualdades sociais no Brasil. Sim, tenho mil críticas aos governos do PT, mas é preciso reconhecer esse avanço. Como as mulheres estão entre os mais pobres, são as que recebem menores salários, especialmente, quando negras, isso é algo a se comemorar. Pena que a diminuição da desigualdade econômica nem sempre represente maior conscientização. Quer um exemplo, olhe a tirinha abaixo:


Eu adoro o trabalho da autora das tirinhas “Mulher de 30”, mas percebem o quanto ela parece entender pouco do que é a luta pela igualdade, ou, talvez, essa tirinha tenha sido muito infeliz. Primeiro, ela iguala atividades esporádicas – encher o tanque, trocar o óleo – com as cotidianas das quais dependem o bem estar de todos em uma casa. Quer dizer que porque um homem leva o carro ao posto de gasolina – e parece que só eles têm carro e fazem isso, não é? – digamos uma vez por semana (*para trocar o óleo, talvez uma vez a cada muitas semanas*), ele está isento de compartilhar as tarefas domésticas? Percebem a falácia? E quem acompanha as tirinhas sabe que ambas as personagens trabalham fora. Sem a crítica, essa tirinha é só mais um reforço da idéia que tanto agrada aos machistas de que mulheres querem somente os direitos, e, claro, não a partilha real das atividades, dos gastos, das responsabilidades. Mas quem fez a tirinha foi uma mulher! Deve ser verdade então!

Também ontem, uma das mais importantes jogadoras de vôlei do Brasil, uma guerreira em vários aspectos, teve suas fotos sensuais enfocadas em uma matéria. Até aí, nada, mas sempre parece o esforço de provar que atletas são “mulheres de verdade”, porque são sexies e tem um corpo para mostrar. Nada de muito novo se ela não tivesse dito “Mulher é bicho ruim. Eu queria ter nascido homem”. Triste, não é? Especialmente quando ela é um símbolo de força e superação. Para piorar, ela, a mãe e a irmã foram abandonadas pelo marido e pai. E tiveram que enfrentar muitos apertos por causa disso. E “mulher é que é bicho ruim”? Difícil de entender...

É isso. Só considerarei desnecessário que exista um “Dia das Mulheres” quando sites como o Machismo Mata não existirem mais. Quando documentários como o que ganhou o Oscar e que fala sobre mulheres que tiveram seus rostos destruídos por ácido por companheiros e homens que não quiseram ou puderam amar, sejam coisa do passado. Quando homens pararem de legislar sobre nossos corpos como se fossem nossos donos e os donos da verdade, da razão, do mundo. Por enquanto, 8 de março é necessário, ainda que tanta gente, mulheres inclusive, não entendam seu significado. OK. Não disse o motivo da criação da data, certo? Sem problema, o post de 2009 foi muito mais inspirado que este. Dê uma olhadinha lá, pois eu acredito que valha a pena.

25/02/2012

80 Anos de Voto Feminino no Brasil



Ontem, 24 de fevereiro, comemorou-se os 80 anos da concessão do direito de voto às mulheres no Brasil. Dentro do código eleitoral provisório ficou estabelecido que poderiam votar todas as mulheres alfabetizadas e maiores de 21 anos. As diferenças entre o voto feminino e masculino existiam. O voto das mulheres era facultativo, enquanto o dos homens era obrigatório. E a diferença mais gritante – e que foi retirada do texto definitivo – é que mulheres casada só poderiam votar com a autorização por escrito do marido, afinal, ele tinha autoridade sobre ela. No entanto, para que uma mulher fosse eleitora, ela precisava ser remunerada e, claro, provar. Percebem que, apesar do avanço, a maioria das mulheres continuavam ainda excluídas do direito ao voto?

Ainda assim, não pensem, no entanto, que o direito de voto foi um "presente" dos homens, assim, um mimo. Foi fruto de muitas lutas e demandas. Não vou abrir o leque para o mundo, mas só para ficarmos no Brasil, a discussão já existia na época da primeira constituição republicana em 1891. Aliás, oficialmente, as mulheres foram excluídas do direito ao voto nesse momento, já que a Constituição do Império não estabelecia restrições de sexo ou relativas à alfabetização. O critério era ser livre e ter a renda exigida para votar em 1ª instância. Agora, nunca li de mulher que tenha tentado votar, ou, se alguma votou, a informação não foi desenterrada ainda. Como historiadora a minha regra é "nunca diga nunca".

A demanda pelo direito ao voto foi crescendo com a articulação de diversas mulheres, feministas, ou não, mas que demandavam uma cidadania plena. Voto é sinônimo de cidadania, privar as mulheres dele é tira-lhes o direito de participar das decisões, de serem agentes políticos plenos. Como na República Velha havia grande autonomia dos Estados da Federação, em 1927, o Rio Grande do Norte concedeu o direito de voto às mulheres e houve a eleição de primeira prefeita do Brasil, Alzira Soriano de Souza. No entanto, apesar dos protestos das mulheres, que foram para as ruas, seus votos terminaram sendo anulados.

Com a Constituição de 1934 o voto feminino passou a ser obrigatório para todas as mulheres que exercessem profissão pública e remunerada, mas algumas restrições persistiram. Para se ter uma idéia, a exigência de que fossem remuneradas só foi abolida definitivamente em 1965. Imagino que a coisa não fosse cobrada, mas continuava na lei, assim como outras restrições à plena cidadania das mulheres persistem até hoje. Não pense que seus direitos caíram do céu. Não desdenhe da luta de tantas mulheres (e homens, também) de gerações passadas. Há quem reclame do voto obrigatório, e é legítimo discutir sobre esta questão, mas não pense que o direito de voto foi algo que sempre existiu, que as mulheres foram sempre convidadas ou intimadas a participar, muitos desejam até hoje nos privar desse direito. Para terminar, cito a minha orientadora (querida), a prof.ª Tânia Navarro-Swain:
Em tese, [o direito ao voto] representa a não discriminação do feminino no processo político, pois as mulheres podem não apenas votar, como serem votadas. Representa igualmente levar em conta as reivindicações das mulheres no quadro socioeconômico do País e sua intervenção na elaboração de políticas públicas específicas e globais.
Espero que o texto seja útil para algumas reflexões. Eu queria ter terminado ontem, mas a internet estava tão ruim que eu não conseguia navegar nas páginas.

06/12/2011

Dia Nacional de Mobilização dos Homens pelo Fim da Violência contra as Mulheres



Estamos no 12º dia da Campanha 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres e, para lembrar um massacre de mulheres (*feminicídio*) ocorrido no Canadá em 1989, foi criado o Dia Nacional de Mobilização dos Homens pelo Fim da Violência contra as Mulheres. Como há muitos homens que são contra qualquer violência contra as mulheres (*a maioria é, aliás*), foi fundado o movimento Laço Branco. Se quiser mais informações, o site deles é este aqui. De qualquer forma, para marcar a data, estou postando o texto da ministra Iriny Lopes, da Secretaria de Política para as Mulheres, publicado na Folha de São Paulo hoje. Boa leitura.

IRINY LOPES

Homens e mulheres num caminho de paz

Masculino ou feminino não é só uma definição de gênero. É uma espécie de alegoria do poder em países como o Brasil, onde a ligação entre violência e gênero, historicamente, estabelece quem são os autores e quem são as vítimas, para firmar o que se poderia chamar de identidade dominante.

Como se a natureza, após séculos e séculos, ainda fosse representada pelo mito da dominação masculina, o que pressupõe força bruta para subjugar a outra espécie: feminina. Neste Dia Nacional de Mobilização dos Homens pelo Fim da Violência contra as Mulheres, nos interessa abrir um caminho de paz entre todos os gêneros, com base na consciência de justiça e igualdade.

Porque foi no dia 6 de dezembro, em 1989, que um jovem, Marc Lepine, de 25 anos, invadiu uma escola de Montreal, retirou os homens do local e, em seguida, atirou e matou 14 mulheres e depois se matou.

Numa carta, ele justificava seu ato dizendo que não suportava a ideia de ver mulheres estudando engenharia, curso tradicionalmente voltado para os homens.

Massacre é o que não queremos ver mais. Nenhum tipo de violência, seja física ou emocional, face mais cruel dessa desigualdade na sociedade. Por isso, marcamos este dia 6 com uma mensagem: as mulheres brasileiras têm, sim, quem as proteja. São muitas as ações e as alianças firmadas no sentido de que sua integridade seja respeitada.

Nesta terça-feira, em parceria com o Supremo Tribunal Federal e com o Conselho Nacional de Justiça, estamos lançando a campanha Compromisso e Atitude no Enfrentamento à Impunidade e à Violência contra a Mulher, justamente para fechar o cerco contra agressores e criminosos.

Cada instituição formulará ações para enfrentar a violência contra as mulheres no âmbito de suas competências, visando dar prioridade a casos de homicídios de cidadãs.

Infelizmente, o cenário é assustador, e os números falam por si só: a cada duas horas, uma mulher é assassinada no país. A cada dois minutos, cinco mulheres são violentamente agredidas.

Graças à Lei Maria da Penha, o Estado reconhece que a violência doméstica deve ser erradicada. Graças à Central de Atendimento à Mulher - Ligue 80, salvamos muitas vidas. O serviço realizou, de 2006 até outubro deste ano, mais de 2 milhões de ligações -são 58.512 relatos de violência de janeiro até outubro de 2011.

Nós avançamos muito em termos de políticas públicas, mas os desafios ainda são grandes até conseguir a pacificação do Brasil. Por enquanto, é campo de guerra, campo minado de instintos selvagens.

A Secretaria de Políticas para as Mulheres e órgãos parceiros têm incentivado o diálogo de paz entre homens e mulheres, participando de campanhas como Homens Unidos pelo Fim da Violência contra as Mulheres, liderada pela ONU.

Em junho deste ano, entregamos ao secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, um abaixo-assinado com 56 mil assinaturas de homens brasileiros se comprometendo publicamente a contribuir para o fim da violência contra as mulheres.

Vamos acabar com isso, é preciso, em nome de uma sociedade democrática, de fato e de direito. Até porque há avanços significativos.

Avançamos na repactuação das políticas para as mulheres, com Estados e municípios, para aumentar a escala dessas ações de enfrentamento à violência, em todas as áreas e instâncias de governo.

Não vamos fazer o papel dos municípios nem dos Estados, mas precisamos construir as interfaces e estabelecer a transversalidade das políticas públicas para que elas transformem positivamente a vida das mulheres. É como se fôssemos alinhavando um grande mutirão em prol das mulheres do Brasil. O caminho é longo, e a chegada, um sonho de todas.

IRINY LOPES é ministra da Secretaria de Política para as Mulheres.

16/04/2011

Minhas Últimas Palavras (ESPERO) sobre o Massacre de Realengo



Queria ter escrito este texto na quinta-feira, e espero que essas sejam as minhas últimas palavras aqui sobre o “Massacre de Realengo” (12). Muitos meios de comunicação, como a Revista Isto é, já sinalizaram que o sujeito foi até a escola para matar meninas (“Apesar de ter escolhido como alvos preferenciais as meninas, o assassino Welington acertou um tiro na cabeça de Rafael Pereira da Silva (...)”), mas a coragem para dizer isso com todas as palavras, dando o nome aos bois – FEMINICÍDIO – só vi nos textos feministas (1-2), e na boca de um dos jornalistas mais extrema-direita desse país. Agora que (Graças ao bom Deus!) os meninos feridos, porque as meninas ele executou mesmo, estão se recuperando (*até os dois que estavam em estado muito grave*), a média deve continuar aquela mesmo: 10 meninas e 2 meninos mortos. Só que a gente continua escondendo falando “12 alunos mortos”, “12 crianças mortas”. Eu fico muito constrangida em ter que concordar (parcialmente) com um facistóide, mas se o resto da mídia, seja a grande imprensa ou os blogs, se recusam a dizer, a aceitar que um sujeito pode, sim, odiar tanto as mulheres e se sentir tão frustrado consigo mesmo a ponto de fazer o que esse cara fez... Paciência! Eu vou continuar clamando no deserto sempre que necessário. Eu não tenho nenhum problema com isso.

Enfim, mas o que me fez postar sobre Realengo de novo foi a exposição que a mídia – a grande imprensa escrita e televisiva – vem fazendo e fotos desse celerado posando com armas, posando com a carta de suicídio, além, claro, dos vídeos. Confesso que quando vi um desses vídeos no Jornal da Globo, quando ouvi a voz áspera, monótona, a fala desconexa do sujeito (*me recuso a escrever no nome dele*), meu estômago revirou. Eu acredito que existam indivíduos que busquem a fama póstuma. Estão dando isso para esse elemento. Agora, ele é famoso! E será ainda mais se continuarmos nesta toada. Logo, várias comunidades e pessoas vão começar a expressar abertamente na internet a paixão por esse monstro que, mesmo que tenha sido vítima de bullying, retornou a sua antiga escola e projetou seu ódio, sua frustração, seu mix de fanatismo religioso, nas meninas e meninos que lá estudavam. Corremos sério risco de termos copy cats, isto é, gente que vai imitar ou tentar imitar esse cara. E, enquanto escrevo, a Record está colocando os vídeos no ar DE NOVO! E a culpa é do Estado que está cedendo essas imagens e vídeos desse sujeito que passa mensagens para aqueles que sofrem bullying os estimulando a... MATAR MENINAS E MENINOS QUE NÃO FORAM OS RESPONSÁVEIS PELA VIOLÊNCIA QUE SOFRERAM!

Esse tipo de cara não deveria ter o direito de fala, não deveria ter o direito de entrar nas nossas casas, porque a TV X ou Y quer audiência. Eu me considero agredida e imagino os pais, mães, irmãos e irmãs, parentes, amigos, dessas crianças, das vítimas fatais e sobreviventes. Já chega! E não estou falando que devemos deixar de discutir o caso. É necessário, muito necessário falar de Realengo, discutir o nosso sistema educacional, falar que foi feminicídio, denunciar como o discurso religioso pode ter terríveis influências sobre mentes já perturbadas... são muitas coisas a discutir neste caso. Aliás, recomendo muito o último texto do Contardo Calligaris sobre o caso. Muito mesmo! Agora, mostrar o rosto do monstro? Sua voz? NÃO! Disso a gente não precisa, ou, pelo menos, eu não preciso!

31/10/2010

Voto em Dilma não porque ela é mulher, mas porque eu sou mulher



A frase acima não foi criada por mim, ou aqui no Brasil, ela veio da pré-campanha democrata americana que contrapôs Barak Obama e Hilary Clinton. Infelizmente, no nosso caso, não se trata de escolher entre um Obama e uma Hilary, o que não seria doloroso, mas entre o projeto político do PT, com todas as suas falhas, com o PMDB (*capaz de mudar de lado sem problema*) à reboque, e um candidato que não não mostra respeito pelas mulheres e que tem no seu círculo o que de pior existe na política brasileira. Meu voto é antes de tudo contra Serra; a TFP (Tradição Família e Propriedade*) com os Monarquistas marcando forte presença; o DEM (*que teve seu único governo "chapa-pura"cassado aqui no DF por corrpução*); a ala ultra-direitista da Igreja Católica (*que ainda deseja rezar uma versão da missa em latim que chama os judeus de assassinos*), e especialmente o seu líder que ousou dar pitaco eleitoral agora bem na véspera endossando a propaganda apócrifa e contra as leis deste país (*e não falo do estado laico, falo de lei eleitoral*); os Integralistas, os (neo)Nazistas, Silas Malafaia (*que traiu Marina ainda no 1º turno, porque Serra era mais cristão que ela e é um dos paladinos da homofobia neste país*), os saudosos da ditadura militar.

Essa turma toda que anda com o Serra já seria bom motivo para não votar nele. Esse grupo, usando dos métodos mais sujos, como vídeos e panfletos, aterrorizou e fez muita gente votar, não em Serra, mas em Marina! E isso bastou para que tivéssemos o inferno do 2º turno. Minha mãe fez isso, porque Dilma "era a favor do aborto, porque parecia sapatão". E eu quase chorei, porque minha mãe está acima da média do evangélico realmente praticante, e se deixou cooptar. Estranhamente, o mesmo material de campanha, não fala que Serra se posicionou a favor da união civil entre homossexuais e que fez regulamentar, quando ministro, a lei do período Vargas que garante o direito de aborto em dois únicos casos, estupro e risco de vida da mãe. Detalhes que ele e a turma que o apóia quer esquecer. O Rio de Janeiro, e minha famílai vota lá, definiu o 1º turno. Na casa dos meus pais, foram dois votos para Marina, e um para Dilma. E como eu senti orgulho do meu pai, que disse não ter motivos para votar em Marina e que, para ele, o governo atual era bom e deveria continuar o mesmo projeto. Ele lembra da Era FHC, os outros parecem ter esquecido. Meu pai é o menos escolarizado e o mais crítico em matéria de fé e política. Se ele tivesse sido convencido por propaganda suja, aí, sim, eu daria tudo como perdido.

Eu estarei simplesmente repetindo meu voto. Por mais simpatias que eu tivesse por Marina, e por mais que Dilma não me convencesse (*seu grande mérito, para mim, é não negar seu passado como guerrilheira*), o PV não teria estrutura para governar e seus grandes nomes , salvo a própria candidata, estavam todos muito propensos a mudar de lado, ainda antes do resultado do 1º turno. Não posso ajudar esses grupos a tomar o poder no Brasil. Contra isso devo lutar usando o meu voto.

Eu não quero que a direita mais suja e retrógrada deste país tome conta do Brasil. Como mulher, como feminista, como alguém que é contra os racismos e a homofobia, como alguém que se preocupa com as políticas sociais, e mesmo como funcionária pública, tenho que votar no PT. É um voto crítico, é um voto desconfiado, mas é o voto contra Serra. Nunca vi uma campanha tão suja na minha vida. O uso de e-mails e panfletos mentirosos e terroristas, o apoio quase que irrestrito da grande imprensa ao candidato tucano, a cooptação de pastores... E, claro, temos o discurso do controle sobre os corpos das mulheres (*obviamente, o aborto sumiu da campanha quando ficou exposto que o próprio candidato e sua esposa fizeram um*) e o estímulo á homofobia como bônus. José Serra e seus aliados são um perigo ao nosso frágil Estado laico, uma das poucas e boas heranças de uma intervenção militar na política brasileira. E, para fechar com chave de ouro, Serra ainda age como cafetão e estimula suas eleitoras a trocarem algum favor amoroso (*ou sexual*) por votos (*e o link é da Folha de São Paulo, para ninguém pensar que é artimanha da "esquerda"*). E estabelece o número de 15! Como mulher, eu não posso desejar que este homem seja o meu presidente. E nem quero comentar a fraude da bolinha de papel e outras mais graves como a dos dossiês ou o desvio de verbas do rodo anel e do metrô de São Paulo que produziu várias mortes (*e, a julgar pela solda utilizada, outras ainda podem vir*).

Mas minha ojeriza por Serra vem de longe, muito longe. Vem de quando esse senhor, então governador de São Paulo, se solidarizou com o seqüestrador da menina Eloá e não permitiu que a polícia fizesse seu trabalho direito. Prometeu-se, em semana de eleição, que o seqüestrador não seria ferido. E não foi, quem morreu foi Eloá e sua amiga, outra adolescente, saiu ferida. Para completar, o mesmo Serra apareceu na TV dizendo que um acidente infeliz tinha acontecido. A menina já deveria estar morta, “o acidente” se chama incompetência e desprezo pela vida das mulheres, especialmente as pobres. Pois bem, se não tivesse qualquer outro motivo para destestá-lo e querer vê-lo varrido da política no Brasil, este bastaria. Por Eloá, eu não posso coperar para que este senhor chegue a presidente do Brasil.

Não sei se Dilma irá vencer hoje, não quero nem vou cantar vitória antes do tempo. Não confio em pesquisas, mas espero sinceramente que elas estejam certas. Quero poder voltar mais tarde e escrever aqui que tenho orgulho de ver a primeira mulher presidente do Brasil e poder ver gente (*mulheres, inclusive*) que repete a frase "aproveitem que amanhã é Halloween e queimem uma bruxa... Votem 45", tendo que engolir o que disse. Eu posso ser a próxima bruxa a ser queimada, afinal, sou feminista, aliás, ser mulher já bastaria. Enfim, pare e reflita sobre o Brasil que você quer, se vale a pena permitir que o que há de mais reacionário no Brasil volte ao poder, ou se dar um voto de confiança à Dilma e ao PT não seria a saída. Votar nulo ou se abster neste momento é ajudar Serra. Eu, pelo menos quero ter minha consciência tranqüila. Reclamar depois não adianta. É preciso que cada um d enós faça a sua parte e vote com consciência.