Faz 80 Dias que mataram Marielle. Foi uma execução, um crime político, que vitimou, também, o motorista Anderson. Quem matou Marielle? E o papo de que a polícia resolveria o caso rápido? Não devemos esquecer. Não podemos esquecer.
Este é um blog feminista, com o intuito de divulgar notícias sobre temas relacionados às mulheres. É um blog político e seu objetivo é claro, quando você começar a ler tenha em mente isso: somos pela igualdade (política) entre mulheres e homens, pelos direitos humanos das mulheres em todo o mundo, pela construção de um mundo melhor para todos e todas. É “uma voz”, porque é a “minha voz”; logo, aqui não serei portadora da verdade ou “a voz” dos feminismos.
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02/06/2018
12/07/2017
Algumas palavras sobre o protesto das senadoras ontem
A velha CLT garantia segurança para grávidas e lactantes, o texto previamente aprovado na Câmara dos Deputados tinha sido criticado pela negligência criminosa. Um dos muitos retrocessos, enfim. Mas, são só mulheres e crianças (*que recebem seu leite, que estão em suas barrigas*) quem se importa com elas? Só quando é para proibir o direito de aborto é que os ânimos se inflamam. Aí, tenha certeza de que todos os homens "de deus" vão berrar bem alto. Contra quem? As próprias mulheres, pois elas não podem ser donas de seus corpos e os homens, esses mesmos que não se importam se elas correm perigo mesmo grávidas, sabem o que é melhor para elas.
Ver os velhos políticos e jornalistas homens de direita, ou governistas, ou ligados ao lobby empresarial criticando as senadoras não me surpreende. A reforma estava aprovada, nada fora um levante popular, talvez (*Há! Há! Há!*) poderia evitá-la nesse momento. O problema foi ver mulheres, amigas, repassando no Facebook textos e memes de escritos também por homens de esquerda BABACAS e MACHISTAS fazendo pouco caso das senadoras. Alguns até responsabilizando-as, porque elas, as senadoras, supostamente não tinham apoiado a greve geral (!!!) e que a saída seria a revolução. Só digo uma coisa, a RadFem que dormita dentro de mim (*porque, sim, concordo e muito com o chamado feminismo radical*) diria o seguinte a revolução sonhada pelos machos dificilmente será a nossa. E usei "dificilmente", porque há algo de otimista dentro de mim.
Ora, se perdemos direitos trabalhistas, que dificilmente serão recuperados, é culpa de uma maioria de homens brancos (*ou que se veem e são vistos e tratados como tal*) e ricos no Congresso que definem o futuro desse país. Há mulheres que votaram na reforma, deputadas e senadoras de partidos de direita ou de aluguel, uma ou outra, talvez, patrocinada pelo patronato, mas o mísero voto das poucas mulheres no legislativo brasileiro não define votação dessa monta, nem são elas as chamadas a falar sobre a atual conjuntura do país. Afinal, elas não lideram nada, nem na política, nem nos esquemas de corrupção, nem em seus partidos. Mesmo que presidentas, e o PT tem uma presidenta, agora, só para citar um exemplo, o partido continua dominado pelos interesses e prioridades ditadas por homens.
O pouco que elas, Gleisi Hoffmann (PT-PR), Fátima Bezerra (PT-RN), Ângela Portela (PT-ES), Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM), Lídice de Mata (PSB-BA), Regina Sousa (PT-PI) e Kátia Abreu (PMDB-TO), fizeram ontem, foi o que pode ser feito nesse ambiente golpista em que vivemos agora. Será que você, amiga que repassa essas coisas, memes e textos desses caras de esquerda debochando delas, realmente crê no que repassa? Acredita que essa utópica revolução desses caras vai pensar em nós ou nos mandará esperar, porque, afinal, há questões maiores a definir?
Economia tem que ser eficiente, não justa.
— Cristovam Buarque (@Sen_Cristovam) July 11, 2017
Terminando, meu senador, o voto do qual mais me arrependo nessa vida (*E olha que votei em Garotinho quando tinha 17 anos*), Cristovam Buarque, votou a favor. E ainda disse no Twitter que economia não precisa ser justa, precisa ser eficiente. Em prol disso, da tal "eficiência" se pode matar, anotem aí. Eu sinto nojo dele, vergonha de alguém que eu imaginava acima da média dos políticos brasileiros, ainda que dado a uns rompantes ridículos. Enfim, Reguffe, aqui do DF, votou contra. Ele não teve meu voto na eleição passada, porque se colocou abertamente contra qualquer discussão sobre direito de aborto. A Katia Abreu, aquela que se tornou a amiga simbólica que qualquer um gostaria de ter no desfecho da queda de Dilma, também, votou contra. Acho que algo de realmente bom aconteceu com essa mulher. Espero que repense outras coisas, também, ela ajudou na ocupação da mesa, ela, que é do PMDB, não precisava se expôr.
30/03/2017
Uma História de Terror do Século XXI
Não acho que vivemos um dos melhores momentos da história da humanidade e esse já é um ponto de partida pessimista para este breve texto. Agora, às vezes, a gente se depara com umas notícias tão surreais que mesmo já tendo lido muita coisa, acaba ficando impactada. E eu preciso escrever, preciso dividir essa pequena angústia. 2017, século XXI, e uma mulher de 36 anos é resgatada do cárcere privado no Ceará. Viveu por 16 anos em um cubículo, sem luz elétrica, nua, sem banheiro em sua cela, sendo alimentada duas vezes ao dia, ela já não era capaz de falar. Era mantida trancada à cadeado e quando vinham lhe dar banho, sempre tentava fugir. Tétrico, sem dúvida.
Motivo do encarceramento? Ela engravidou aos 20 anos. O pai e o irmão não aceitavam uma mãe solteira na família e decidiram escondê-la. Quando o bebê nasceu, um menino, foi entregue para ser criado por outras pessoas. A moça estudava, tinha uma vida normal, mas "deu um mau passo", como minha avó, nascida em 1930, diria. Foi o suficiente para todo esse terror. Os relatos (*1-2*) falam que ela tinha ficado abalada pelo fim de um relacionamento. Normal, não é mesmo? A maioria das pessoas que namora, rompe, enfim, já ficou abalada. O filho veio de um rápido namoro posterior. Um acidente? Talvez e custou-lhe a juventude, atirou-lhe na prisão.
Em que ano estamos de novo? É possível que o machismo seja tão perene, tão forte, que tais práticas persistam em nosso país? Será que ninguém deu por falta dela? No colégio ou faculdade? As amigas? Ninguém a procurou? Toda a cidadezinha era cúmplice? 16 anos! Quantos foram os cúmplices? O delegado já localizou o filho. Como se deu o acolhimento? A família "adotiva" não sabia de nada? Não estamos mais no século XIX, tampouco o Nordeste, ou mais especificamente o Ceará, vive em outra temporalidade. E, pior, poderia ocorrer em qualquer outro canto do Brasil, não se enganem. Não é o primeiro caso de cárcere privado de mulheres que leio, simplesmente, me pareceu o pior, o mais terrível. Vivemos um mundo de paradoxos. Modernidade e atraso, mas é mais fácil, ou menos difícil, que certas coisas aconteçam com as mulheres.
O problema são as motivações arcaicas do caso, que sinalizam a prevalência do status inferior das mulheres, do fato da frágil honra dos homens depender do controle dos corpos das mulheres. O responsável maior pela atrocidade, o irmão de 48 anos, está preso e pode pegar no máximo 8 anos de cadeia, mas eu duvido. O pai, talvez a mente por trás do encarceramento, teve sei lá quantos AVCs e não responde por si. A mãe da encarcerada, nunca concordou com o acontecido, mas se submeteu, se calou, não é o que o patriarcado exige? Submissa, adoeceu e está entrevada em uma cama. Seu único ato de resistência, segundo a matéria, foi adoece e parar de falar.
Eu fiquei me sentindo mal. É fácil encher a boca e falar que nos rincões do Afeganistão, em um vilarejo perdido da Índia, em uma comunidade tribal em algum canto da África, as mulheres passam poucas e boas. É aviltante, mas aceitável, pegar o livro Princesa e ler que um pai na Arábia Saudita mandou encarcerar a filha rebelde, mas, aqui, no Brasil, podemos ser uma terra de feminicídios, mas não somos tão arcaicos. Somos, podemos ser. Está aí. E as fotos da prisão só me fazem imaginar o desespero desta mulher.
Desculpem, mas precisava comentar, chorar. Eu sou mulher e feminista. O sofrimento de qualquer mulher é meu sofrimento, também. E eu só posso imaginar e imaginar já dói. Eu tenho uma menina de três anos. É terrível pensar que ela possa ser tirada de mim Torço para que haja punição pelo menos para o irmão, mas qualquer que seja, nada, nada vai compensar os anos roubados dessa mulher, o direito de maternar que lhe foi tirado, a desumanização, enfim. Nada.
19/03/2017
Maternidade obrigatória
O canal do Dr. Drauzio Varella tem uma seção chamada Cabine e foi postado lá este vídeo muito interessante:
A discussão é sobre maternidade compulsória, a crença de que é o "destino" de todas as mulheres serem mães e seguindo o percurso "natural" casar (*porque sem casar, é "puta", né?*), engravidar, ter a criança e a ela se dedicar sempre com um sorriso nos lábios, sem sequer poder contar com o apoio externo, do pai, só uma "ajudinha". Enfim, assistam e dêem uma olhada nos vídeos da seção Cabine, são ótimos.
25/08/2016
A perseguição ao burkini é uma forma de violência contra as mulheres
Nos últimos dias, a polêmica em torno da proibição do burkini, uma roupa de banho pensada por uma mulher muçulmana para atender às necessidades de outras mulheres da mesma fé (*e de quem mais quiser usar*), nas praias de Cannes e em outras regiões da França despertou polêmica. Segundo a legislação baixada por homens, a roupa de banho é inapropriada e está em desacordo com os costumes do país. Existe roupa certa para ir à praia? Enfim, parece que existe.
Abalada por uma série de atentados, o país parece particularmente sensível em relação aos muçulmanos, especialmente, aqueles que podem ser identificados como tal. Nesse sentido, as mulheres muçulmanas que usam qualquer roupa que as identifique como tal, seja o simples véu (hijab), ou outro símbolo qualquer, como o burkini, se tornam alvo preferencial de agressores e, como se vê nesse momento, legisladores preocupados com os bons costumes.
Eu pensava em escrever alguma coisa sobre a questão, mas estava e estou sem tempo, no entanto, o incidente acontecido em Nice, cidade do horrendo atentado em que um homem muçulmano atropelou com um caminhão centenas de pessoas que estavam assistindo aos fogos do 14 de julho, me deixou realmente chocada. Uma dona de casa de 34 anos, ex-comissária de bordo, estava com os filhos na praia. Abordada por quatro policiais, ela foi multada em 11 euros. Não satisfeitos, as quatro autoridades obrigaram a mulher a se despir de parte de suas roupas na frente de todos e assistida por seus filhos pequenos em prantos. Algumas pessoas que viam o espetáculo gritavam "Vão para casa!" e "Somos católicos!". Horror total.
A cena me trouxe a mente coisas como policiais, sempre homens, medindo o comprimento de roupas de banho de mulheres nos anos 1920 e 1930, até as judias sendo obrigadas a se despir na frente de guardas homens ao chegarem nos campos de concentração ou extermínio nazistas, ou ainda as iranianas compelidas pela violência física ou verbal a usarem o véu nos tempos da Revolução Islâmica Iraniana. Violência contra as mulheres no seu nível mais básico, porque impotente diante da autoridade, as mulheres se veem reduzidas aos seus corpos que devem, ou ser escondido, ou ser despido, para a satisfação dos poderes patriarcais instituídos.
Eu entendo e apoio a proibição do niqab e da burka, aquilo que chamamos de véu integral, por roubarem das mulheres a sua identidade, o seu rosto. Sei que a proibição está muito mais ligada a preocupações de segurança do que propriamente interesse pelos direitos humanos das mulheres, mas vá lá, eu compreendo e acredito que seja justo. Eu apoio a lei que proíbe o uso de símbolos religiosos ostensivos nas escolas públicas como forma de resguardar a secularidade e promover a socialização. Há escolas particulares para quem considera essas questões fundamentais, fora que fundamentalistas nunca estão satisfeitos, pedem uma unha e, logo, logo, lhe pediram o pé inteiro, ou a perna. Agora, qual o mal no tal burkini?
A criadora da peça, a estilista Aheda Zanetti, nascida no Líbano e residente na Austrália, criou a peça para dar liberdade às mulheres muçulmanas que não desejavam (*ou podiam*) usar biquínis ou maiôs convencionais de se divertirem na praia. Algumas dessas mulheres se viam privadas, por suas crenças pessoais, ou por pressão da comunidade, de praticarem uma série de atividades. O burkini aparece como uma opção espetacular. A criadora, inclusive, partiu da sua própria experiência como menina e adolescente muçulmana castrada de uma série de atividades por ser mulher e somente por isso. A peça se tornou famosa, aliás, ao ser adotada por mulheres muçulmanas que se tornaram salva-vidas nas praias australianas.
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| Aheda Zanetti, a criadora do burkini. |
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| A jovem salva-vidas que se tornou garota propaganda do burkini. |
Em vários formatos e cores – basta procurar – o burkini tornou-se popular em vários países e é usado, também, por mulheres que desejam se proteger do sol. Enfim, ainda que por trás do uso do burkini também esteja as falsas premissas de modéstia que pesam sobre as mulheres, afinal, a depender da leitura religiosa monoteísta (*estou pensando dentro dela*) patriarcal, ou somos as sedutoras, ou os homens são os incontroláveis e, por um motivo, ou outro, cabe às mulheres esconderem seu corpo ou se absterem de certas atividades. Por exemplo, causou escândalo em Israel que um importante rabino ultra-ortodoxo tenha ordenado que pais e mães proíbam que suas meninas maiores de 5 anos possam andar de bicicleta nas ruas, porque, bem, isso é imoral e pode despertar os desejos dos homens. É mais fácil, claro, castrar as meninas do que manter os pedófilos sob controle vitimizar os pedófilos.
Voltando ao burkini, o que me faz simpatizar com a criadora é que ela tem completa noção das pressões que as mulheres muçulmanas sofrem e ela lhes oferece uma possibilidade. As fundamentalistas de verdade não irão usar o burkini, pois ou não irão à praia, para se misturar com os infiéis, ou entraram com seus chadors ou abayas, sem nem se importarem, isso, claro, se forem flexíveis. O burkini me parece, portanto, algo de mulher para mulher e preocupado com as suas necessidades muito mais do que com o olhar masculino.
O burkini é o único caso de roupa de banho “religiosa”, por assim dizer? Não, entrem aqui na página da “Wholesome Wear”, que vende roupas de banho "que destacam seu rosto, não o seu corpo" (“Swimwear that highlights the face, not the body.”), e observem que fundamentalistas cristãs também têm opções. E, vejam bem, ao contrário do burkini, esse tipo de traje de banho se vende como algo que lhe torna melhor, superior, às outras mulheres. A Aheda Zanetti parece que nunca foi pega dizendo essas abobrinhas, mas só defendendo que mulheres e moças muçulmanas também têm direito de se divertir em paz... Até que vieram os franceses...
Não há justificativa para a proibição da peça, salvo se as autoridades acreditem que as mulheres são obrigadas a expor o seu corpo, afinal, este é um dever feminino. Obviamente, não é qualquer corpo, como as muitas propagandas nos ensinam, mas o corpo jovem e esguio, os demais não são lá muito aceitáveis, também. O que este caso todo está mostrando para o mundo é que existe, efetivamente, islamofobia, especialmente, em relação às mulheres (*coisa que eu já tinha dito na resenha do livro do Charb*). Motivo? Seja por opção pessoal (*e não vou discutir assujeitamento religioso aqui, OK? Adesão não significa falta de coerção*), ou por coerção do grupo (*família, comunidade, Estado*), elas são alvo fácil.
Aliás, em tempos de Olimpíada, puseram para circular fotos de atletas iranianas antes e depois da Revolução Islâmica. A idéia, claro, era condenar o que temos hoje, mostrar o retrocesso. Para alguns, deveriam proibi-las de participar dos jogos. Aí, ninguém tira um segundo para pensar que elas, as atletas atuais, são umas guerreiras, porque, bem, ou elas usam o véu - e quem exige é o Estado - ou elas não podem praticar esportes. Mas é o Irã, então convém descer a lenha sem se perguntar como é que as coisas são na Arábia Saudita, por exemplo, que só muito recentemente começou a discutir a possibilidade da educação física em escolas públicas para meninas. Do outro lado, a turma que vê empoderamento em tudo mostrando as atletas muçulmanas veladas e celebrando a diversidade. Concordo que foi muito bonita a foto das duas atletas no vôlei de praia, e uma egípcia usava véu e outra não usava. Só que elas deixaram claro que sem usar mangas e calças compridas, elas não podem jogar em seu país. Quais os limites da sua liberdade? Enfim, cuidado aí, porque duvido que a menina de 18 anos do Irã que levou bronze no taekwondo preferia estar com ou sem véu.
Marcadas que são em seus corpos, afinal, a campanha recente é toda para fixar na nossa cabeça que muçulmana sem véu não é muçulmana de verdade, ainda que isso não se comprove no social, elas se tornam vulneráveis aos diversos ataques. E, agora, como o caso de Siam mostra, também, às piores humilhações. De novo, o que esse caso pavoroso expõe é que quem mais se preocupa em cobrir ou descobrir mulheres são os homens. E aí, vale despir ou vestir, e caberia aos homens definir o que é legítimo para as mulheres usarem, ou não usarem. Enquanto isso, claro, boa parte dos homens religiosos consegue se misturar sem grandes problemas, afinal, basta cercear a liberdade das suas mulheres para ganhar, ao que parece, pontos com a divindade.
E termino deixando o link para o texto de uma ex-muçulmana sobre a questão e um trecho no qual ela fala da falsa simetria entre biquiniXburkini para quem não entendeu e fica repassando esse quadrinho acima como se tudo fosse a mesma coisa: “Quando a aceitação de uma mulher por parte da comunidade, seu respeito, dignidade, empregabilidade, possibilidades de casamento, segurança física, emancipação, a mobilidade social, acesso a instituições sociais, a liberdade, e autonomia no o seu dia-a-dia depender da inabalável adesão pública ao biquíni, então nós poderemos fazer essa comparação. Quando uma mulher não puder deixar sua casa vestindo outra coisa senão um biquíni sem ser considerada imoral e seu valor humano e honra familiar ficarem comprometidas, então nós poderemos fazer essa comparação. Quando existirem forças legais, sociais e extrajudiciais graves ligando a segurança, bem-estar, e meios de subsistência de uma mulher a sua adesão ao biquíni, então nós poderemos fazer essa comparação.”
21/12/2012
Existe Pena de Morte no Brasil? Se você é mulher, existe, sim!
Nesta semana um caso gerou espanto e revolta em muita gente na internet: uma mulher residente em Minas Gerais, casada e sofrendo de uma cardiopatia grave, requereu conforme a lei – artigo 128 do código penal – o direito a um aborto terapêutico. A decisão não é definitiva, cabe recurso, mas ela está na oitava semana, e sua saúde e vida estão em risco. Notícia pode ser lida em várias fontes: TJMG, Último Segundo, Estado de Minas, Jornal do Commercio, R7, etc. Sim, é possível a interrupção da gravidez em alguns casos neste país: estupro, risco de vida da mãe e má formação fetal grave (*vide o caso dos anencéfalos*). Só que, apesar da mulher ter todo o direito de interromper a gravidez para preservar a sua vida, o juiz Geraldo Carlos Campos, deliberou que o casal, que já tinha interrompido outra gravidez ano passado, não tomou nenhuma medida contraceptiva (*Será? E se “sim”, e daí?*) e que a gravidez era esperada (*"não deixa de ser um ato voluntário"*), que como pessoas "maduras e esclarecidas", tiveram uma "conduta negligente".
Antes que alguém diga que há um bebê a caminho, assevero que dada a gravidade da saúde da mãe (*ou não teria autorização para abortar anteriormente*), não haverá bebê algum, mas, sim, uma mulher morta ao fim deste processo. A escolha da foto do post foi proposital, ainda mais em um mundo no qual é possível desumanizar ao extremo uma mulher fazendo chamada de jornal na TV com “primeira imagem do herdeiro real” e mostrar a imagem da esposa do neto da Rainha Elizabeth com uma ínfima barriga de três meses. Além disso, a lei lhe assegura o direito a interrupção, não é algo que fique ao bel prazer do juiz. Gravidez acidental acontece, métodos contraceptivos falham, e se formos para os métodos contraceptivos naturais, aqueles defendidos pelos pró-vida religiosos, a abstinência, eles falham mais ainda. Independente da (*suposta*) negligência do casal, a decisão do juiz vai contra a lei e, claro, pune a mulher com a possível morte. Engravidou “porque quis”? Morra. Porque apesar do apoio do marido, é ela, a mulher, que está com sua vida em risco.
Só em uma sociedade na qual as nossas vidas valem tão pouco, poderia acontecer uma decisão como esta. Mulheres são cidadãs de segunda classe, não tem direito de autonomia sobre seus corpos e, sim, podem ter sua vida colocada em risco para castigá-la. Neste caso, vejam bem, nem se trata de garantir a vida do feto, mas de punir mesmo a mulher, especialmente, porque, bem, ela engravidou DE NOVO. É uma covardia e crueldade tão grande que é difícil imaginar... Quer dizer, eu, como mulher, posso imaginar. Eu posso passar pela mesma situação, hipoteticamente falando. Eu posso engravidar, ter direito a interrupção de uma gravidez segundo a lei, procurar os meios legais (*não uma clínica clandestina*) e ter um juiz (*homem*) definindo que, mesmo casada, “não promíscua” (*vocês sabem, que isso pesa muito*), me castigando com a morte, porque, bem, sou uma pessoa esclarecida (*Poxa! Com doutorado e não sabe prevenir uma gravidez?!*) e madura (*chegando lá nos 40 anos*). É aviltante. Eu optaria por uma esterilização, talvez, a moça nem possa se submeter a ela, mas um marido consciente faria uma vasectomia. Mas é opção, e nem acho que prevista na rede pública para casos como esse, mas nem fui procurar.
Recentemente, uma mulher de origem indiana morreu na Irlanda – país bem mais católico que o nosso, pelo menos nas estatísticas – porque lhe negaram um aborto terapêutico. Aqui, esse juiz se arvorou de “deus” para deliberadamente condenar uma mulher à morte. Pois é isso que a sentença pretende, já que a doença não permitirá que a gravide chegue a bom termo, simplesmente, bem, porque ela engravidou DE NOVO. Só para fechar, reforço que, neste caso, nem se trata de priorizar o feto à mulher que o carrega, trata-se de punição mesmo, condenação à morte ou tortura. Tortura, aliás, é crime e pena de morte não está prevista em nosso código penal. Mas, reforço, mulheres não são cidadãs completas e o judiciário esses dias anda tendo seu já inflado ego midiaticamente reforçado com a idéia de que são o poder acima dos poderes. Ser mulher no Brasil é muito perigoso e isso não é só papo de feministas, como eu, mas algo que se materializa em decisões judiciais como essa.
01/12/2012
As Mulheres Negras e os Direitos Civis nos EUA
Desde o fim da Reconstrução Radical (1865-1877) vigoraram no Sul dos Estados Unidos as chamadas Leis Jim Crow (1876-1965), que legitimavam a Segregação Racial com base na premissa (*falsa*) "Separados, mas Iguais". Qualquer pessoa que tenha assistido mesmo o filme mediano Histórias Cruzadas, entende o que estou dizendo. Pois bem, Rosa Parks foi presa em 1 Dezembro de 1955, porque não quis se levantar para que um homem branco pudesse sentar. Hoje é dia de lembrá-la. Sua coragem, seu orgulho, foi o estopim para que outros negros e negras se mobilizassem nos EUA para que as leis racistas-segregacionistas fossem derrubadas.
O sistema de transporte público de Montgomery, Alabama, sofreu boicote por 381 dias, até que as autoridades cederam a aboliram o sistema que estabelecia que negros sentavam no fundo do ônibus, brancos na frente e se o ônibus enchesse, a cada branco que entrasse, um negro ou negra deveria ceder o lugar. Rosa Parks não foi a primeira mulher, nem a primeira pessoa, a se rebelar contra a segregação nos transportes públicos em algum Estado do Sul, antes dela, pelo menos três mulheres ganharam notoriedade por fazer o mesmo: Irene Morgan (1946), Sarah Louise Keys (1955), e Claudette Colvin (1955).
Irene Morgan era secretária, e se recusou a levantar na cidade de Middlesex County, Virginia. Não somente isso, ela entrou em luta corporal com o xerife e outra autoridade masculina para não deixar o veículo. Foi presa, seu caso se arrastou na justiça, e foi parar na Suprema Corte. Imaginem o risco que essa mulher correu, e, claro, o mal exemplo, já que não somente se rebelou, mas partiu para a luta corporal... Sarah Keys (siga o link) era militar, das primeiras a se graduar na academia militar, das primeiras militares negas a cursar Direito com verba do Exército, e estava voltando para uma licença em sua cidade natal, Washington, Carolina do Norte. Ela tomou o ônibus em Fort Dix, New Jersey, seguiu até Washington D.C., onde embarcou em um ônibus sulista. Sentou-se na quinta fileira. Quando houve troca de motorista na pequena Roanoke Rapids , o condutor exigiu que ela fosse para o fundo do ônibus e cedesse o lugar para um fuzileiro branco. Ela se recusou. Foi presa. O caso foi parar na Suprema Corte.
Já Claudette Colvin, uma adolescente de 15 anos, voltando da escola, foi a primeira mulher em Montgomery a resistir às leis segregacionistas em ônibus, nove meses antes de Parks, mas por ser uma menina, que poderia ser taxada de "rebelde", não foi considerada como um símbolo adequado ao movimento de direitos civis. Na verdade, e isso não diminui Rosa Parks, mas mostra o quanto uma imagem mais conservadora, todas as outras eram jovens, Parks já tinham 43 anos, por exemplo, se presta melhor como propaganda em uma sociedade igualmente conservadora... Hoje não é dia de lembrar somente de Rosa Parks, mas de todas essas outras mulheres e ressaltar que a luta por direitos iguais não acabou.
Já Claudette Colvin, uma adolescente de 15 anos, voltando da escola, foi a primeira mulher em Montgomery a resistir às leis segregacionistas em ônibus, nove meses antes de Parks, mas por ser uma menina, que poderia ser taxada de "rebelde", não foi considerada como um símbolo adequado ao movimento de direitos civis. Na verdade, e isso não diminui Rosa Parks, mas mostra o quanto uma imagem mais conservadora, todas as outras eram jovens, Parks já tinham 43 anos, por exemplo, se presta melhor como propaganda em uma sociedade igualmente conservadora... Hoje não é dia de lembrar somente de Rosa Parks, mas de todas essas outras mulheres e ressaltar que a luta por direitos iguais não acabou.
18/04/2012
E o Século XIX é revisitado em uma festa constrangedora

Quando abri a Folha de São Paulo hoje, deparei-me com essa foto chocante. A de cima, que fui procurar em uma resolução melhor em outro site, a outra encontrei na mesma busca. Há vários ângulos do bolo na internet. Vejam bem, houve uma festa (*não protesto*) no Moderna Museet (museu de arte moderna de Estocolmo), com a presença de ministra da Cultura sueca, Lena Adelsohn Liljeroth, o objetivo era chamar atenção para uma das maiores crueldades que são infringidas às mulheres, especialmente na África, mas, também, em alguns países do Oriente Médio, a mutilação genital feminina, que alguns tentam adocicar chamando de circuncisão feminina. A mutilação, prática mais que milenar no Continente Africano, tem como principal objetivo controlar o exercício da sexualidade feminina, em alguns casos, privando as mulheres de qualquer prazer sexual. Sancionada por algumas lideranças islâmicas, a prática resistiu apesar de não ser essencialmente muçulmana. Pois bem, um artista (*homem*) decidiu fazer essa beleza de bolo: uma mulher negra absolutamente estereotipada; nua, como as vênus negras colocadas em exposição no século XIX; com recheio vermelho; sugerindo carne e sangue; deveria ser cortada a partir das genitais pela ministra. A cada corte, um grito.
Olhem a foto. Mulheres brancas riem do bolo que é uma das coisas mais constrangedoras e ofensivas que eu já vi. Elas não se veem na mulher negra objetificada, levada ao extremo de ser oferecida como comida (*e gostosa*). O artista branco não se projetar na figura bizarra que criou, OK, mas mulheres na Suécia – um dos países com melhores índices de igualdade de gênero – não compreenderem isso, dói, dói muito. A associação Afro-Sueca qualificou (*com toda a razão*) a decisão da ministra de participar do evento mostra “incompetência e falta de discernimento” e pede sua demissão. Ela se diz antirracista. Eu acredito que seja, como tantos antirracistas que não conseguem perceber o quão racistas são. Só que a coisa transcende o racismo, porque traz de volta o gosto ruim do colonialismo, na apropriação do corpo das mulheres negras, como força de trabalho e fonte de prazer sexual. É triste, muito triste, ver imagens tão século XIX sendo reeditadas dessa forma.
22/03/2012
Polícia prende homens que planejavam massacre contra estudantes em Brasília
Eu nem estava sabendo que esses monstros estavam planejando atacar aqui em Brasília, na UnB. Espero realmente que os dois presos sejam os primeiros de muitos e que passem todos os seis anos (*pena máxima*) na cadeia. Infelizmente, os semeadores de ódio - que se escondem atrás do suposto direito de liberdade de expressão - são muitos, mas eu acredito que a mobilização é capaz de tirar vários deles de circulação. Racismo e pedofilia são crimes previstos em lei e homofobia e misoginia/sexismo deveriam ser, também. Se der cadeia, então, duvido que alguns desses bons moços (*homens, brancos, heterossexuais, supostamente cristãos, direitistas*) vão arriscar passar uma temporada no xilindró. Percebam que, apesar da reportagem dizer "gente", estava escrito "vagabundas e esquerdistas". Para esses sujeitos, não se enganem, qualquer mulher é vagabunda, não somente as que o senso comum aponta como tal. Enfim, precisava postar. Já desconfiava que o sujeito de Realengo tinha colegas e incentivadores. Foram meses de denúncias e investigações, pelo menos alguma coisa aconteceu com eles.
08/03/2012
Mais um 8 de Março... Comemorar? Acho que, não!

Hoje é o Dia Internacional das Mulheres, assim mesmo, no plural, porque mulheres não são todas iguais, assim como os homens. Considero o 8 de março um dia de lutas, um dia para lembrar que há muito a se fazer ainda pelo progresso das mulheres no mundo, por uma igualdade de direitos e oportunidades para ambos os sexos. Não é dia de ganhar rosa (*e eu ganhei a minha no portão do trabalho*), ou de receber parabéns. Aliás, o deboche transparece quando vejo colegas homens dizendo uns aos outros “hoje é seu dia”, e o cidadão desmunheca, ri, fala fino... Sim, desprezo pelo feminino e homofobia, mas, claro, que é tudo para fazer humor, não é? Quem precisa de dia é porque não tem dia nenhum. Dia das mulheres, Consciência Negra, do Índio, das Crianças, dos Professores (*que ganham tão mal na maioria dos Estados da Federação*), ... Sim, vamos lembrar dessa turma pelo menos uma vez por ano. E tome matérias cretinas na imprensa.
Ontem, a melhor de todas foi que as mulheres brasileiras são as mais felizes do mundo, afinal, os brasileiros são o povo mais feliz do mundo. Feliz com a corrupção, com o descaso dos políticos, com o confisco de direitos, com a erosão do Estado Laico, etc. Ontem, também, por exemplo, em Anápolis, coração no Bible Belt Católico brasileiro, pertinho da capital da República, a lei orgânica do município excluiu o direito de aborto legal previsto em constituição. Ah, diz um amigo meu “o Supremo e a OAB vão resolver”. Sim, seu sei, mas, enquanto isso, mulheres serão privadas dos seus direitos de cidadania, pois seus corpos são propriedade dos legisladores (homens). E qualquer um sabe que a interrupção de uma gravidez por estupro ou de risco não é algo que se espere. Percebem a perversidade e na véspera do “Dia da Mulher”, assim, no singular, porque essa intervenção nos iguala a todas, somos todas subcidadãs e valemos muito, muito pouco mesmo.
De boa notícia ontem, tivemos a de redução das desigualdades sociais no Brasil. Sim, tenho mil críticas aos governos do PT, mas é preciso reconhecer esse avanço. Como as mulheres estão entre os mais pobres, são as que recebem menores salários, especialmente, quando negras, isso é algo a se comemorar. Pena que a diminuição da desigualdade econômica nem sempre represente maior conscientização. Quer um exemplo, olhe a tirinha abaixo:

Eu adoro o trabalho da autora das tirinhas “Mulher de 30”, mas percebem o quanto ela parece entender pouco do que é a luta pela igualdade, ou, talvez, essa tirinha tenha sido muito infeliz. Primeiro, ela iguala atividades esporádicas – encher o tanque, trocar o óleo – com as cotidianas das quais dependem o bem estar de todos em uma casa. Quer dizer que porque um homem leva o carro ao posto de gasolina – e parece que só eles têm carro e fazem isso, não é? – digamos uma vez por semana (*para trocar o óleo, talvez uma vez a cada muitas semanas*), ele está isento de compartilhar as tarefas domésticas? Percebem a falácia? E quem acompanha as tirinhas sabe que ambas as personagens trabalham fora. Sem a crítica, essa tirinha é só mais um reforço da idéia que tanto agrada aos machistas de que mulheres querem somente os direitos, e, claro, não a partilha real das atividades, dos gastos, das responsabilidades. Mas quem fez a tirinha foi uma mulher! Deve ser verdade então!
Também ontem, uma das mais importantes jogadoras de vôlei do Brasil, uma guerreira em vários aspectos, teve suas fotos sensuais enfocadas em uma matéria. Até aí, nada, mas sempre parece o esforço de provar que atletas são “mulheres de verdade”, porque são sexies e tem um corpo para mostrar. Nada de muito novo se ela não tivesse dito “Mulher é bicho ruim. Eu queria ter nascido homem”. Triste, não é? Especialmente quando ela é um símbolo de força e superação. Para piorar, ela, a mãe e a irmã foram abandonadas pelo marido e pai. E tiveram que enfrentar muitos apertos por causa disso. E “mulher é que é bicho ruim”? Difícil de entender...
É isso. Só considerarei desnecessário que exista um “Dia das Mulheres” quando sites como o Machismo Mata não existirem mais. Quando documentários como o que ganhou o Oscar e que fala sobre mulheres que tiveram seus rostos destruídos por ácido por companheiros e homens que não quiseram ou puderam amar, sejam coisa do passado. Quando homens pararem de legislar sobre nossos corpos como se fossem nossos donos e os donos da verdade, da razão, do mundo. Por enquanto, 8 de março é necessário, ainda que tanta gente, mulheres inclusive, não entendam seu significado. OK. Não disse o motivo da criação da data, certo? Sem problema, o post de 2009 foi muito mais inspirado que este. Dê uma olhadinha lá, pois eu acredito que valha a pena.
06/12/2011
Dia Nacional de Mobilização dos Homens pelo Fim da Violência contra as Mulheres

Estamos no 12º dia da Campanha 16 Dias de Ativismo pelo Fim da Violência contra as Mulheres e, para lembrar um massacre de mulheres (*feminicídio*) ocorrido no Canadá em 1989, foi criado o Dia Nacional de Mobilização dos Homens pelo Fim da Violência contra as Mulheres. Como há muitos homens que são contra qualquer violência contra as mulheres (*a maioria é, aliás*), foi fundado o movimento Laço Branco. Se quiser mais informações, o site deles é este aqui. De qualquer forma, para marcar a data, estou postando o texto da ministra Iriny Lopes, da Secretaria de Política para as Mulheres, publicado na Folha de São Paulo hoje. Boa leitura.
IRINY LOPES
Homens e mulheres num caminho de paz
Masculino ou feminino não é só uma definição de gênero. É uma espécie de alegoria do poder em países como o Brasil, onde a ligação entre violência e gênero, historicamente, estabelece quem são os autores e quem são as vítimas, para firmar o que se poderia chamar de identidade dominante.
Como se a natureza, após séculos e séculos, ainda fosse representada pelo mito da dominação masculina, o que pressupõe força bruta para subjugar a outra espécie: feminina. Neste Dia Nacional de Mobilização dos Homens pelo Fim da Violência contra as Mulheres, nos interessa abrir um caminho de paz entre todos os gêneros, com base na consciência de justiça e igualdade.
Porque foi no dia 6 de dezembro, em 1989, que um jovem, Marc Lepine, de 25 anos, invadiu uma escola de Montreal, retirou os homens do local e, em seguida, atirou e matou 14 mulheres e depois se matou.
Numa carta, ele justificava seu ato dizendo que não suportava a ideia de ver mulheres estudando engenharia, curso tradicionalmente voltado para os homens.
Massacre é o que não queremos ver mais. Nenhum tipo de violência, seja física ou emocional, face mais cruel dessa desigualdade na sociedade. Por isso, marcamos este dia 6 com uma mensagem: as mulheres brasileiras têm, sim, quem as proteja. São muitas as ações e as alianças firmadas no sentido de que sua integridade seja respeitada.
Nesta terça-feira, em parceria com o Supremo Tribunal Federal e com o Conselho Nacional de Justiça, estamos lançando a campanha Compromisso e Atitude no Enfrentamento à Impunidade e à Violência contra a Mulher, justamente para fechar o cerco contra agressores e criminosos.
Cada instituição formulará ações para enfrentar a violência contra as mulheres no âmbito de suas competências, visando dar prioridade a casos de homicídios de cidadãs.
Infelizmente, o cenário é assustador, e os números falam por si só: a cada duas horas, uma mulher é assassinada no país. A cada dois minutos, cinco mulheres são violentamente agredidas.
Graças à Lei Maria da Penha, o Estado reconhece que a violência doméstica deve ser erradicada. Graças à Central de Atendimento à Mulher - Ligue 80, salvamos muitas vidas. O serviço realizou, de 2006 até outubro deste ano, mais de 2 milhões de ligações -são 58.512 relatos de violência de janeiro até outubro de 2011.
Nós avançamos muito em termos de políticas públicas, mas os desafios ainda são grandes até conseguir a pacificação do Brasil. Por enquanto, é campo de guerra, campo minado de instintos selvagens.
A Secretaria de Políticas para as Mulheres e órgãos parceiros têm incentivado o diálogo de paz entre homens e mulheres, participando de campanhas como Homens Unidos pelo Fim da Violência contra as Mulheres, liderada pela ONU.
Em junho deste ano, entregamos ao secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, um abaixo-assinado com 56 mil assinaturas de homens brasileiros se comprometendo publicamente a contribuir para o fim da violência contra as mulheres.
Vamos acabar com isso, é preciso, em nome de uma sociedade democrática, de fato e de direito. Até porque há avanços significativos.
Avançamos na repactuação das políticas para as mulheres, com Estados e municípios, para aumentar a escala dessas ações de enfrentamento à violência, em todas as áreas e instâncias de governo.
Não vamos fazer o papel dos municípios nem dos Estados, mas precisamos construir as interfaces e estabelecer a transversalidade das políticas públicas para que elas transformem positivamente a vida das mulheres. É como se fôssemos alinhavando um grande mutirão em prol das mulheres do Brasil. O caminho é longo, e a chegada, um sonho de todas.
IRINY LOPES é ministra da Secretaria de Política para as Mulheres.
16/04/2011
Minhas Últimas Palavras (ESPERO) sobre o Massacre de Realengo

Queria ter escrito este texto na quinta-feira, e espero que essas sejam as minhas últimas palavras aqui sobre o “Massacre de Realengo” (1–2). Muitos meios de comunicação, como a Revista Isto é, já sinalizaram que o sujeito foi até a escola para matar meninas (“Apesar de ter escolhido como alvos preferenciais as meninas, o assassino Welington acertou um tiro na cabeça de Rafael Pereira da Silva (...)”), mas a coragem para dizer isso com todas as palavras, dando o nome aos bois – FEMINICÍDIO – só vi nos textos feministas (1-2), e na boca de um dos jornalistas mais extrema-direita desse país. Agora que (Graças ao bom Deus!) os meninos feridos, porque as meninas ele executou mesmo, estão se recuperando (*até os dois que estavam em estado muito grave*), a média deve continuar aquela mesmo: 10 meninas e 2 meninos mortos. Só que a gente continua escondendo falando “12 alunos mortos”, “12 crianças mortas”. Eu fico muito constrangida em ter que concordar (parcialmente) com um facistóide, mas se o resto da mídia, seja a grande imprensa ou os blogs, se recusam a dizer, a aceitar que um sujeito pode, sim, odiar tanto as mulheres e se sentir tão frustrado consigo mesmo a ponto de fazer o que esse cara fez... Paciência! Eu vou continuar clamando no deserto sempre que necessário. Eu não tenho nenhum problema com isso.
Enfim, mas o que me fez postar sobre Realengo de novo foi a exposição que a mídia – a grande imprensa escrita e televisiva – vem fazendo e fotos desse celerado posando com armas, posando com a carta de suicídio, além, claro, dos vídeos. Confesso que quando vi um desses vídeos no Jornal da Globo, quando ouvi a voz áspera, monótona, a fala desconexa do sujeito (*me recuso a escrever no nome dele*), meu estômago revirou. Eu acredito que existam indivíduos que busquem a fama póstuma. Estão dando isso para esse elemento. Agora, ele é famoso! E será ainda mais se continuarmos nesta toada. Logo, várias comunidades e pessoas vão começar a expressar abertamente na internet a paixão por esse monstro que, mesmo que tenha sido vítima de bullying, retornou a sua antiga escola e projetou seu ódio, sua frustração, seu mix de fanatismo religioso, nas meninas e meninos que lá estudavam. Corremos sério risco de termos copy cats, isto é, gente que vai imitar ou tentar imitar esse cara. E, enquanto escrevo, a Record está colocando os vídeos no ar DE NOVO! E a culpa é do Estado que está cedendo essas imagens e vídeos desse sujeito que passa mensagens para aqueles que sofrem bullying os estimulando a... MATAR MENINAS E MENINOS QUE NÃO FORAM OS RESPONSÁVEIS PELA VIOLÊNCIA QUE SOFRERAM!
Esse tipo de cara não deveria ter o direito de fala, não deveria ter o direito de entrar nas nossas casas, porque a TV X ou Y quer audiência. Eu me considero agredida e imagino os pais, mães, irmãos e irmãs, parentes, amigos, dessas crianças, das vítimas fatais e sobreviventes. Já chega! E não estou falando que devemos deixar de discutir o caso. É necessário, muito necessário falar de Realengo, discutir o nosso sistema educacional, falar que foi feminicídio, denunciar como o discurso religioso pode ter terríveis influências sobre mentes já perturbadas... são muitas coisas a discutir neste caso. Aliás, recomendo muito o último texto do Contardo Calligaris sobre o caso. Muito mesmo! Agora, mostrar o rosto do monstro? Sua voz? NÃO! Disso a gente não precisa, ou, pelo menos, eu não preciso!
Enfim, mas o que me fez postar sobre Realengo de novo foi a exposição que a mídia – a grande imprensa escrita e televisiva – vem fazendo e fotos desse celerado posando com armas, posando com a carta de suicídio, além, claro, dos vídeos. Confesso que quando vi um desses vídeos no Jornal da Globo, quando ouvi a voz áspera, monótona, a fala desconexa do sujeito (*me recuso a escrever no nome dele*), meu estômago revirou. Eu acredito que existam indivíduos que busquem a fama póstuma. Estão dando isso para esse elemento. Agora, ele é famoso! E será ainda mais se continuarmos nesta toada. Logo, várias comunidades e pessoas vão começar a expressar abertamente na internet a paixão por esse monstro que, mesmo que tenha sido vítima de bullying, retornou a sua antiga escola e projetou seu ódio, sua frustração, seu mix de fanatismo religioso, nas meninas e meninos que lá estudavam. Corremos sério risco de termos copy cats, isto é, gente que vai imitar ou tentar imitar esse cara. E, enquanto escrevo, a Record está colocando os vídeos no ar DE NOVO! E a culpa é do Estado que está cedendo essas imagens e vídeos desse sujeito que passa mensagens para aqueles que sofrem bullying os estimulando a... MATAR MENINAS E MENINOS QUE NÃO FORAM OS RESPONSÁVEIS PELA VIOLÊNCIA QUE SOFRERAM!
Esse tipo de cara não deveria ter o direito de fala, não deveria ter o direito de entrar nas nossas casas, porque a TV X ou Y quer audiência. Eu me considero agredida e imagino os pais, mães, irmãos e irmãs, parentes, amigos, dessas crianças, das vítimas fatais e sobreviventes. Já chega! E não estou falando que devemos deixar de discutir o caso. É necessário, muito necessário falar de Realengo, discutir o nosso sistema educacional, falar que foi feminicídio, denunciar como o discurso religioso pode ter terríveis influências sobre mentes já perturbadas... são muitas coisas a discutir neste caso. Aliás, recomendo muito o último texto do Contardo Calligaris sobre o caso. Muito mesmo! Agora, mostrar o rosto do monstro? Sua voz? NÃO! Disso a gente não precisa, ou, pelo menos, eu não preciso!
07/04/2011
'Ele atirava nas meninas para matar', diz aluno que sobreviveu a ataque

Eu não queria estar certa, mas nosso primeiro massacre em escolas (*e que seja o último*) foi, também, um feminicídio (crime de ódio contra mulheres). Será que eu fui a única a juntar dois pontos? Vi o Datena e ele cortou o repórter dizendo que não dava para saber, porque não sabíamos quantos alunos e alunas havia em sala. É o medo de admitir que uma proporção de quase 10 menina para 1 menino em uma escola comum não pode ser NORMAL? Será que a carta enlouquecida do assassino não era sintomático de alguma coisa? Mas os meninos, maioria dos sobreviventes, estão confirmando: "Ele atirava nas meninas para matar", disse um;"Relaxa, godrinho, eu não vou te matar", disse outro; e, por fim, "Ele colocava a arma na testa das garotas e puxava o gatilho, sem pena" e "Ele simplesmente entrou na sala, puxou a arma e começou a selecionar as pessoas que iriam morrer". Eis que o ódio do sujeito pelas mulheres transbordou nisso aí, no assassinato brutal de meninas. Então, quando lembrarem deste crime, lembrem, também, que há crimes que são específicos, feminicídio, assim como homofobia, existem. Crimes assim acontecem todos os dias e, sim, homens heterossexuais são seus agentes na maioria dos casos. É triste, mas a cultura da violência favorece esse tipo de coisa, e a cultura da violência é machista. Por favor, diga ao babaca que saiu papagaiando que meninas morreram em maior número "porque não correm direito" ou "porque ficam paralisadas de medo", que essa pessoa está papagaiando idéias machistas, também.
Minhas Considerações sobre as Meninas Massacradas em Realengo

Estou abrindo esse post por pura especulação e indignação. Primeiro, o crime da escola em Realengo, as 11 alunas mortas, sim, no feminino, porque foram 10 meninas e 1 menino, me deixaram profundamente triste e amargurada. Agora, sim, estamos no primeiro mundo! Temos nosso Columbine... ou algo do gênero. Em segundo lugar, as proporções de 10 meninas para apenas 1 menino entre os mortos e de 13 meninas feridas para somente 3 meninos feridos, me deixaram de cabelo em pé. A carta do assassino, carregada de surtos religiosos (*cristãos, não islâmicos, como muita gente começou a inventar*) e sexuais sobre castidade e pureza, me deixou muito, muito desconfiada. Para mim, e estou fazendo essa afirmação sem nenhuma informação posterior, trata-se de um crime de ódio. Ofereço, para quem duvida, dois outros crimes semelhantes em números: o da Universidade em Montreal, no Canadá e o da Escola Amish, nos EUA.
Em 1989, Montreal, um sujeito invadiu a École Polytechnique, entrou em uma sala, rendeu todos, separou homens de mulheres e disse que estava lutando contra o feminismo. Atirou em nove moças, matou seis. Deixou uma carta de suicídio com uma lista de “feministas” que queria matar. O caso da escola Amish é mais recente. Em 2006, um sujeito invadiu uma escola Amish (*Lembram do filme A Testemunha?*), tomou uma classe como refém, liberou os meninos, ficou com as dez menininhas. Matou cinco, e não terminou o serviço, porque ao perceber a aproximação da polícia, ele se matou.
Agora, alguém me diga qual escola do Rio de Janeiro ou de qualquer lugar do Brasil que não seja curso normal, enfermagem (*e aqui pode nem ser*) ou algo semelhante que tenha uma proporção próxima de 10 meninas para cada 1 menino em sala. Eu lecionei em curso normal e a proporção chegava perto disso. Esse não era o caso da escola do Realengo. Contudo vem alguém e me diz que temos estes números, porque as meninas sentam na frente. E, sim, ninguém se mexeu. Eu dou aula para adolescentes, posso até ter mais meninas na frente, mas a proporção é quase meio a meio.
Desculpem, mas meu desconfiômetro está ligado aqui. Não acho que existam culpados. Não é algo que se espere que aconteça em uma escola brasileira, ninguém pode comprar armas de forma indiscriminada neste país salvo se estiver envolvido com o crime, e torço para que não tenhamos ninguém imitando o criminoso em outras escolas por aí. Eu realmente acredito que ocorreu um crime de ódio e o uso do masculino, o suposto universal, que esconde o número de vítimas mulheres, meninas, na verdade, é ofensivo. Torço, também, para que nenhuma das feridas morra e estou incluindo os três meninos.
Quanto ao assassino, era alguém que sofria de transtorno mental. Deveria estar internado, mas o Estado abriu mão de tratar de forma adequada os doentes mentais, para cortar custos. Claro, que tudo é disfarçado em belas teorias que dizem que é melhor o paciente estar com os seus familiares... Sei! Nem sempre isso é possível e/ou aconselhável. Eu defendo o tratamento humanizado, que hospitais psiquiátricos não pdoem ser prisões, no entanto, é preciso dar todo o apoio especializado aos parentes e ao paciente. Isso, o Estado não tem feito. Eis a minah crítica. Outra coisa, vi gente especulando que o policial executou o sujeito. Armado do jeito que ele estava (*vi a foto dele morto no jornal O Dia, com os carregadores em volta do corpo. Se abrir, está avisad@!*), se o policial o matou, fez o que deveria ter feito naquelas condições. Não lamento isto, eu lamento, sim, pelas crianças. E que me chamem de fascista se quiserem, pois assumo integralmente o que digo. Cabe agora investigar como o sujeito conseguiu as armas, tanta munição e os carregadores rápidos (speed loaders). Qual o significado do seu traje imitando a indumentária militar? E o conhecimento e o treinamento que, apesar de ser mentalmente doente, ele certamente possuía? Isso, sim, é importante!
O relato de uma das meninas sobreviventes (*1-2*) só reforça que o criminoso tinha um modus operandi. a cosia foi planejada e ele escolheu matar meninas. Meninas mesmo, já que ele entrou e a primeira pessoa que encontrou foi uma professora.
Em 1989, Montreal, um sujeito invadiu a École Polytechnique, entrou em uma sala, rendeu todos, separou homens de mulheres e disse que estava lutando contra o feminismo. Atirou em nove moças, matou seis. Deixou uma carta de suicídio com uma lista de “feministas” que queria matar. O caso da escola Amish é mais recente. Em 2006, um sujeito invadiu uma escola Amish (*Lembram do filme A Testemunha?*), tomou uma classe como refém, liberou os meninos, ficou com as dez menininhas. Matou cinco, e não terminou o serviço, porque ao perceber a aproximação da polícia, ele se matou.
Agora, alguém me diga qual escola do Rio de Janeiro ou de qualquer lugar do Brasil que não seja curso normal, enfermagem (*e aqui pode nem ser*) ou algo semelhante que tenha uma proporção próxima de 10 meninas para cada 1 menino em sala. Eu lecionei em curso normal e a proporção chegava perto disso. Esse não era o caso da escola do Realengo. Contudo vem alguém e me diz que temos estes números, porque as meninas sentam na frente. E, sim, ninguém se mexeu. Eu dou aula para adolescentes, posso até ter mais meninas na frente, mas a proporção é quase meio a meio.
Desculpem, mas meu desconfiômetro está ligado aqui. Não acho que existam culpados. Não é algo que se espere que aconteça em uma escola brasileira, ninguém pode comprar armas de forma indiscriminada neste país salvo se estiver envolvido com o crime, e torço para que não tenhamos ninguém imitando o criminoso em outras escolas por aí. Eu realmente acredito que ocorreu um crime de ódio e o uso do masculino, o suposto universal, que esconde o número de vítimas mulheres, meninas, na verdade, é ofensivo. Torço, também, para que nenhuma das feridas morra e estou incluindo os três meninos.
Quanto ao assassino, era alguém que sofria de transtorno mental. Deveria estar internado, mas o Estado abriu mão de tratar de forma adequada os doentes mentais, para cortar custos. Claro, que tudo é disfarçado em belas teorias que dizem que é melhor o paciente estar com os seus familiares... Sei! Nem sempre isso é possível e/ou aconselhável. Eu defendo o tratamento humanizado, que hospitais psiquiátricos não pdoem ser prisões, no entanto, é preciso dar todo o apoio especializado aos parentes e ao paciente. Isso, o Estado não tem feito. Eis a minah crítica. Outra coisa, vi gente especulando que o policial executou o sujeito. Armado do jeito que ele estava (*vi a foto dele morto no jornal O Dia, com os carregadores em volta do corpo. Se abrir, está avisad@!*), se o policial o matou, fez o que deveria ter feito naquelas condições. Não lamento isto, eu lamento, sim, pelas crianças. E que me chamem de fascista se quiserem, pois assumo integralmente o que digo. Cabe agora investigar como o sujeito conseguiu as armas, tanta munição e os carregadores rápidos (speed loaders). Qual o significado do seu traje imitando a indumentária militar? E o conhecimento e o treinamento que, apesar de ser mentalmente doente, ele certamente possuía? Isso, sim, é importante!
O relato de uma das meninas sobreviventes (*1-2*) só reforça que o criminoso tinha um modus operandi. a cosia foi planejada e ele escolheu matar meninas. Meninas mesmo, já que ele entrou e a primeira pessoa que encontrou foi uma professora.
25/11/2010
25 de novembro: Dia da Não-Violência contra as Mulheres

A violência de gênero é tão recorrente, tão recorrente, que nunca é demais repetir que ela existe, até porque tem gente que não lembra. Para se ter uma idéia, ontem uma menina de 15 anos foi morta à pancadas pelo pai em São Paulo. Motivo? Estava namorando escondido. Mas o delegado já mostrou para quem vai a simpatia: "Foi uma infelicidade. O pai não queria matar a filha, mas dar um corretivo". Alguém chuta a cabeça de uma pessoa (*mulheres são pessoas, eu acho*) por "infelicidade"? Acho que, não. E não concordo com uma discussão que explodiu no Twitter associando esse tipo de coisa a São Paulo, por conta das últimas explosões de racismo e homofobia. Não, amiguinhos! Pode acontecer e acontece em todo o lugar, não somente em São Paulo, não somente no Brasil.
22/08/2010
Agressão à Mulher – Os novos covardes
Ótima matéria do Correio Braziliense sobre violência contra as mulheres e os preconceitos dos profissionais ligados ao atendimento das vítimas. Clique no Infográfico e leia algumas das falas que estão na tese de doutorado da Prof.ª Marilda de Oliveira Lemos. Falando nisso, a casa abrigo para as mulheres vítimas de violência de Brasília foi despejada, porque o GDF não pagou o aluguel. É o (des)governo abandonando as mulheres vítimas da violência doméstica e possibilitando que elas sejam alvo de novas agressões por parte de maridos e companheiros, principalmente. Segue a matéria, ela era somente para assinantes. Agressão à Mulher – Os novos covardes
Nas últimas décadas, elas foram estimuladas a denunciar a violência e abandonaram a postura de silêncio. Mas hoje, mesmo com todas as conquistas, enfrentam a visão machista e preconceituosa de quem deveria prestar todo o apoio
Renata Mariz
De Ângela Diniz, morta em 1976 com um tiro pelo ex-companheiro, ao possível assassinato de Eliza Samudio, do qual o maior suspeito é o ex-amante Bruno Fernandes de Souza, que jogava no Flamengo, muita coisa mudou. As mulheres saíram das amarras machistas, conquistaram bons espaços no mundo profissional, ganharam autonomia sobre o próprio corpo e deixaram de silenciar as agressões sofridas no lar. Com quatro anos de existência, a Lei Maria da Penha contribuiu para esse comportamento mais ativo. Mas vencer as resistências referentes ao novo papel na sociedade do chamado sexo frágil ainda é um desafio. Nem os agentes policiais que geralmente são os primeiros a terem contato com as vítimas da violência doméstica escapam da visão preconceituosa.
Essa foi a conclusão de uma pesquisa apresentada na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP). O objetivo da autora, a assistente social Marilda de Oliveira Lemos, era conhecer as representações sociais de gênero entre agentes policiais de delegacias de defesa da mulher e de distritos policiais. Com base nas entrevistas com seis delegados e seis escrivães, todos de serviços localizados em Santo André (SP), Marilda constatou uma mentalidade extremamente machista. “Alguns, não apenas nas entrelinhas, mas explicitamente, sustentam a subordinação da mulher ao homem. Essa visão, transformada em prática profissional, poderá fazer a diferença no momento de interpretar e aplicar a Lei Maria da Penha”, diz Marilda.
Segundo a pesquisadora, um tom desqualificador da ação das mulheres e um tom conivente com os agressores foram recorrentes nas entrevistas (leia trechos abaixo). Para Ana Cláudia Pereira, consultora do Centro de Estudos Feministas e Assessoria (Cfemea), o preconceito apontado pelo estudo acadêmico é sentido na prática. “Recebemos mulheres que nos procuram pedindo ajuda porque não conseguiram fazer a denúncia. É clara essa ideia entre alguns agentes da polícia e operadores do direito de que a mulher ou provocou a agressão ou a agressão não foi tão séria assim. Muitos, aliás, ressentem-se do trabalho a mais depois da Lei Maria da Penha”, destaca Ana Cláudia. O tema da violência doméstica foi ressaltado na última semana devido aos 10 anos do assassinato de Sandra Gomide pelo jornalista Pimenta Neves, que não aceitava o fim da relação.
Vítimas da violência
Antes e depois do caso Pimenta Neves, o assassinato de mulheres chocou o país algumas vezes. Veja os crimes de maior repercussão:
Ângela Diniz
Raul Fernandes do Amaral Street, conhecido por Doca Street, matou a namorada Ângela Diniz, apelidada de Pantera de Minas, em 1976, com um tiro, por não aceitar o fim do relacionamento. Cumpriu pena por homicídio.
Eliana de Gramond
Vinte dias após o desquite formalizado, o cantor Lindomar Castilho alvejou a ex, também cantora, em um bar em São Paulo. O crime ocorreu em 1981 e Castilho pegou pena de quase 13 anos, boa parte cumprida em regime aberto.
Eloá Pimentel
Depois de manter Eloá Cristina Pimentel refém por mais de 100 horas, porque a adolescente de 15 anos terminou o namoro, Lindemberg Alves baleou a garota. O rapaz está preso desde o assassinato, em 2008. O julgamento não tem data marcada.
Eliza Samudio
Eliza Samudio desapareceu em junho. A polícia sustenta que a moça foi seqüestrada e assassinada a mando do goleiro Bruno Fernandes, que jogava no Flamengo. Eliza era amante de Bruno e exigia que ele reconhecesse a paternidade de seu filho. O jogador está preso.
Dado depõe até sexta-feira
O ator e cantor Dado Dolabella, acusado pela ex-mulher Viviane Sarahyba de agressão, será intimado pela Justiça para prestar depoimento nos próximos dias. A juíza Maria Cristina Brito Lima, da 1ª Vara da Família, na Barra, Rio de Janeiro, expediu a intimação e, agora, o artista terá cinco dias para se explicar às autoridades. Viviane entregou à juíza inúmeros documentos que comprovariam as agressões de Dado.
Editora: Baptista Chagas de Almeida // brasil.df@dabr.com.br – Tels. 3214-1104 / 1186 / 1293
05/08/2010
Direitos humanos e diplomacia nuclear devem andar juntos, diz Nobel da Paz
Para o Brasil de Lula, parece que, não é. Se bem que nenhum país tem gritado para a Arábia Saudita (onde a cidadania feminina é piada) ou para a China (2ª economia do mundo) ou Israel. Obviamente, isso não desculpa Lula, mas ajuda a compor um quadro de hipocrisia mundial que nossos jornais tendem a ignorar. É como se fosse problema somente do governo brasileiro, e deste especialmente, e não uma prática corrente. A diferença é que o Irã é inimigo dos EUA. Não pensem que eu estou relevando a execução, não é isso, ou a covardia e atraso do governo brasileiro em se posicionar, especialmente quando parece ter acesso privilegiado aos governantes do Irã, mas é preciso pontuar essas questões também. Espero que ainda seja possível reverter a questão. O artigo veio do site da Folha de São Paulo.
Direitos humanos e diplomacia nuclear devem andar juntos, diz Nobel da Paz
SHIRIN EBADI, ativista de direitos humanos e primeira mulher muçulmana a receber o Nobel da Paz, analisa as relações entre Brasil e Irã.
O angustiante caso de Sakineh Mohammadi Ashtiani, mãe de dois filhos que um tribunal iraniano sentenciou à morte por apedrejamento em um caso de adultério, atraiu merecida atenção mundial ao draconiano código penal do Irã, que reserva suas mais cruéis punições às mulheres. A prática do apedrejamento, especialmente, é tão repulsiva que até mesmo aliados políticos como o Brasil se sentiram compelidos a agir.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ofereceu asilo a Ashtiani, no final de semana, por meio de um apelo direto ao presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad. O Irã ainda não respondeu formalmente, e um líder estrangeiro não tem influência direta sobre um processo judicial interno. Mas a intervenção brasileira envia uma mensagem poderosa à República islâmica: seu histórico de direitos humanos não poderá ser separado de sua diplomacia nuclear.
Antes da Revolução Islâmica de 1979, nos anos em que eu trabalhava como juíza no Irã, relações sexuais consensuais entre adultos não constavam do código penal. A revolução impôs uma versão da lei islâmica extraordinariamente rigorosa até mesmo pelos padrões dos países muçulmanos, tornando o sexo extraconjugal crime passível de punição legal. Sob o código penal revolucionário, a punição para homem ou mulher solteiros que pratiquem sexo extraconjugal passou a ser de cem chibatadas; e o artigo 86 dispõe que uma pessoa casada culpada de adultério seja morta por apedrejamento.
À primeira vista, o apedrejamento não é punição aplicada de acordo com o sexo da pessoa envolvida, pois a lei estipula que homens adúlteros enfrentem o mesmo fim brutal. Mas porque a lei iraniana permite a poligamia, na prática oferece aos homens uma rota de fuga: eles podem alegar que sua relação adúltera constituía na verdade um casamento temporário (a lei iraniana reconhece 'casamentos' de apenas algumas horas de duração, entre homens e mulheres solteiras). Os homens em geral aproveitam essa cláusula de escape, e são raramente sentenciados à morte por apedrejamento. Mas as mulheres casadas acusadas de adultério não têm direito a essa exceção.
Mesmo desconsiderada a barbárie do apedrejamento, os códigos leais do Irã estão repletos de incoerências e indefinições que tornam impossível respeitar os princípios do direito. O código aponta que se um homem ou mulher tiver negado o acesso sexual a seu cônjuge devido a viagens ou outras formas prolongadas de separação, cem chibatadas bastam como punição por adultério, mas a duração dessa separação aceitável não é definida.
O apedrejamento também pode ser comutado a por uma sentença de punição com chibatadas nos casos em que uma mulher casada faça sexo com um menor de idade (a lei iraniana define a idade de maturidade sexual como nove anos para as meninas e 15 para os meninos). Em termos reais, isso significa que uma mulher casada que cometa adultério com um homem de 40 anos de idade deve ser sentenciada à morte por apedrejamento, mas caso cometa o mesmo ato com um menino de 15 anos --ou seja, explore sexualmente um menor de idade--, tem o direito a uma sentença mais branda.
O processo criminal por adultério e a promulgação da sentença de morte por apedrejamento não requerem nem mesmo que exista um queixoso pessoal; se for possível provar que um homem ou mulher cometeu adultério, mesmo que o cônjuge o perdoe, o transgressor deve ser executado por apedrejamento. O artigo 105 permite que um juiz sentencie uma adúltera com base apenas na queixa de seu marido.
Esses lapsos gritantes são apenas os mais visíveis dos motivos por que o Irã precise reconsiderar sua prática de uma punição tão antiquada que a maioria dos países islâmicos há muito descartaram em seu esforço de harmonizar o islamismo às normas modernas.
O apedrejamento vem sendo criticado há muito por diversos juristas islâmicos, mais notavelmente o aiatolá Yousef Saanei. Esses juristas acreditam que uma punição dessa ordem era aplicada nos dias iniciais do advento do islamismo, no século 7º, no deserto da Arábia Saudita, de acordo com os costumes então vigentes. Apontam que o Corão não menciona apedrejamento e acreditam que punições mais amenas, como multas ou prisão, podem ser consideradas.
Advogados, ativistas dos direitos humanos e juristas condenam a prática do apedrejamento desde que esta foi adotada no sistema de Justiça criminal da República Islâmica. Infelizmente, a República Islâmica do Irã se manteve indiferente aos seus protestos. Talvez agora, diante das críticas de um poderoso aliado como o Brasil, Teerã se veja forçada a considerar se sua adesão a esse tipo de prática de fato serve aos interesses nacionais.
Para evitar os protestos internacionais que os casos de apedrejamento em geral suscitam, o governo se abstém de anunciar publicamente os veredictos de execução por apedrejamento. É apenas lentamente, por meio de informações passadas de boca em boca por familiares e advogados, que os casos chegam ao conhecimento da mídia. Por isso, nem mesmo sabemos exatamente quantos iranianos receberam essa punição nas três últimas décadas.
Há 18 meses, a mídia iraniana reportou que um homem havia sido executado por apedrejamento na cidade de Qazvin. E agora, uma mulher chamada Sakineh Ashtiani enfrenta a possibilidade de um destino semelhante. Além disso, há outras pessoas que podem estar na mesma situação sem que ninguém saiba.
Tradução de PAULO MIGLIACCI
Direitos humanos e diplomacia nuclear devem andar juntos, diz Nobel da Paz
SHIRIN EBADI, ativista de direitos humanos e primeira mulher muçulmana a receber o Nobel da Paz, analisa as relações entre Brasil e Irã.
O angustiante caso de Sakineh Mohammadi Ashtiani, mãe de dois filhos que um tribunal iraniano sentenciou à morte por apedrejamento em um caso de adultério, atraiu merecida atenção mundial ao draconiano código penal do Irã, que reserva suas mais cruéis punições às mulheres. A prática do apedrejamento, especialmente, é tão repulsiva que até mesmo aliados políticos como o Brasil se sentiram compelidos a agir.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva ofereceu asilo a Ashtiani, no final de semana, por meio de um apelo direto ao presidente iraniano Mahmoud Ahmadinejad. O Irã ainda não respondeu formalmente, e um líder estrangeiro não tem influência direta sobre um processo judicial interno. Mas a intervenção brasileira envia uma mensagem poderosa à República islâmica: seu histórico de direitos humanos não poderá ser separado de sua diplomacia nuclear.
Antes da Revolução Islâmica de 1979, nos anos em que eu trabalhava como juíza no Irã, relações sexuais consensuais entre adultos não constavam do código penal. A revolução impôs uma versão da lei islâmica extraordinariamente rigorosa até mesmo pelos padrões dos países muçulmanos, tornando o sexo extraconjugal crime passível de punição legal. Sob o código penal revolucionário, a punição para homem ou mulher solteiros que pratiquem sexo extraconjugal passou a ser de cem chibatadas; e o artigo 86 dispõe que uma pessoa casada culpada de adultério seja morta por apedrejamento.
À primeira vista, o apedrejamento não é punição aplicada de acordo com o sexo da pessoa envolvida, pois a lei estipula que homens adúlteros enfrentem o mesmo fim brutal. Mas porque a lei iraniana permite a poligamia, na prática oferece aos homens uma rota de fuga: eles podem alegar que sua relação adúltera constituía na verdade um casamento temporário (a lei iraniana reconhece 'casamentos' de apenas algumas horas de duração, entre homens e mulheres solteiras). Os homens em geral aproveitam essa cláusula de escape, e são raramente sentenciados à morte por apedrejamento. Mas as mulheres casadas acusadas de adultério não têm direito a essa exceção.
Mesmo desconsiderada a barbárie do apedrejamento, os códigos leais do Irã estão repletos de incoerências e indefinições que tornam impossível respeitar os princípios do direito. O código aponta que se um homem ou mulher tiver negado o acesso sexual a seu cônjuge devido a viagens ou outras formas prolongadas de separação, cem chibatadas bastam como punição por adultério, mas a duração dessa separação aceitável não é definida.
O apedrejamento também pode ser comutado a por uma sentença de punição com chibatadas nos casos em que uma mulher casada faça sexo com um menor de idade (a lei iraniana define a idade de maturidade sexual como nove anos para as meninas e 15 para os meninos). Em termos reais, isso significa que uma mulher casada que cometa adultério com um homem de 40 anos de idade deve ser sentenciada à morte por apedrejamento, mas caso cometa o mesmo ato com um menino de 15 anos --ou seja, explore sexualmente um menor de idade--, tem o direito a uma sentença mais branda.
O processo criminal por adultério e a promulgação da sentença de morte por apedrejamento não requerem nem mesmo que exista um queixoso pessoal; se for possível provar que um homem ou mulher cometeu adultério, mesmo que o cônjuge o perdoe, o transgressor deve ser executado por apedrejamento. O artigo 105 permite que um juiz sentencie uma adúltera com base apenas na queixa de seu marido.
Esses lapsos gritantes são apenas os mais visíveis dos motivos por que o Irã precise reconsiderar sua prática de uma punição tão antiquada que a maioria dos países islâmicos há muito descartaram em seu esforço de harmonizar o islamismo às normas modernas.
O apedrejamento vem sendo criticado há muito por diversos juristas islâmicos, mais notavelmente o aiatolá Yousef Saanei. Esses juristas acreditam que uma punição dessa ordem era aplicada nos dias iniciais do advento do islamismo, no século 7º, no deserto da Arábia Saudita, de acordo com os costumes então vigentes. Apontam que o Corão não menciona apedrejamento e acreditam que punições mais amenas, como multas ou prisão, podem ser consideradas.
Advogados, ativistas dos direitos humanos e juristas condenam a prática do apedrejamento desde que esta foi adotada no sistema de Justiça criminal da República Islâmica. Infelizmente, a República Islâmica do Irã se manteve indiferente aos seus protestos. Talvez agora, diante das críticas de um poderoso aliado como o Brasil, Teerã se veja forçada a considerar se sua adesão a esse tipo de prática de fato serve aos interesses nacionais.
Para evitar os protestos internacionais que os casos de apedrejamento em geral suscitam, o governo se abstém de anunciar publicamente os veredictos de execução por apedrejamento. É apenas lentamente, por meio de informações passadas de boca em boca por familiares e advogados, que os casos chegam ao conhecimento da mídia. Por isso, nem mesmo sabemos exatamente quantos iranianos receberam essa punição nas três últimas décadas.
Há 18 meses, a mídia iraniana reportou que um homem havia sido executado por apedrejamento na cidade de Qazvin. E agora, uma mulher chamada Sakineh Ashtiani enfrenta a possibilidade de um destino semelhante. Além disso, há outras pessoas que podem estar na mesma situação sem que ninguém saiba.
Tradução de PAULO MIGLIACCI
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